Dos ciganos e outras ausências ®

29/12/2010 at 11:26 AM 4 comentários

Mário era como a madrugada: perto de acordar, mas ainda cheio de sono. Era um menino feito de coragem e medo. “Ele tem os olhos líquidos”, repetia o avô. E a casa observava, em silêncio, o mar e o rio que haviam nomeado as suas águas.

Acreditavam que a sua vontade de partir tinha vindo do desamor. Tudo em sua casa já andava ocupado demais. As cadeiras, as camas, os pratos. Até mesmo o carinho distribuído. Por muitas vezes ele duvidava de tudo. Pensava ser um cigano esquecido em porta de família alheia.

Quando eles, os ciganos, surgiam, Mário se fazia rarefeito e ficava perambulando por entre os panos. Percorrendo a cidade, invadindo ouvidos, o seu caminhar promovia sonhos. Entre os sons de violinos e guitarras, de suas bocas ele ouvia um canto bonito, em língua diferente, que até mesmo o silêncio aquietava para escutar. Com os corações ameaçados, a cidade dormia. Em seus sonhos havia fugas, amores, pequenos barcos, grandes mares.

Foi então que descobriram o seu outro segredo: ele comungava a vontade de fazer-se atraído pelos ciganos e ser roubado por eles. Porque ser roubado é o mesmo que ser amado. Só roubamos aquilo que nos falta.

E ele só queria ser ausência, mesmo que fosse  a ausência dos ciganos.

(texto republicado)

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Beijoquices ® Do que falta

4 Comentários Add your own

  • 1. rafaela  |  29/12/2010 às 1:34 PM

    MARIO… mar e rio que nomeiam suas águas…

    vc é tão linda!…

    me lembrou DRUMMOND – ainda q ao avesso: pq essa ausência assimilada ninguém rouba mais de mim…

    CLÓVIS!

    pulo.

    Responder
    • 2. Marjorie Bier  |  29/12/2010 às 1:56 PM

      Só amor, só pulos altos, só coisas lindas pra você!

      Responder
  • 3. Eduardo Trindade  |  30/12/2010 às 2:08 AM

    Nossa, que bela e tocante esta tua prosa com jeito de poesia… Identifiquei-me em muitos pontos (é o que acontece com a boa poesia, a gente se identifica, mesmo meio sem saber, com ela, com o porsonagem, com o jeito de escrever…). Imaginei e lembrei coisas – as coisas imaginadas nem sempre é fácil confessar, entre as lembradas está Cem Anos de Solidão.
    Obrigado por partilhar este texto com teus leitores!
    Abraços e feliz Ano Novo!

    Responder
    • 4. Marjorie Bier  |  30/12/2010 às 12:59 PM

      Obrigada pela visita, Edu.

      Uma ano novo inspirado(r) pra você.

      besos

      Responder

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