Fala comigo doce como a chuva

20/09/2010 at 5:46 PM 2 comentários

Dentro de um quarto de pensão, um homem acaba de despertar. Não usa mais do que cuecas velhas e amarrotadas, enquanto sua mulher está sentada numa cadeira junto à janela. Lá fora o céu está cinzento, carregado de uma chuva que a qualquer instante haverá de cair. Ela segura um copo de água do qual, com gestos nervosos, toma pequenos goles. Ambos têm rostos jovens e desolados como os rostos de crianças sobreviventes em países devastados pela fome.

Que horas são?, pergunta ele com voz rouca. Ao que ela responde murmurando qualquer coisa inaudível. O que, meu bem?, insiste ele.

Domingo, responde ela.

Eu sei que é domingo. Você nunca dá corda no relógio.

Ela bebe outro gole d’água. Seus braços delicados e magros se esforçam para suportar o peso do copo que parece puxá-la para frente como se o peso dos anos estivesse contido no liquido que ela, trêmula, agora sorve. O homem a observa da cama, solene e ao mesmo tempo carinhoso. Ao longe se pode escutar uma música, suave, cristalina — um bandolim – vindo do quarto ao lado.

Será que eu descontei o meu cheque de desemprego?, ele pergunta.

Começa chover forte, fazendo os pombos esvoaçarem com estardalhaço pela janela ao lado da mulher e seu pesado copo de água. De algum outro quarto, também se escuta a voz de uma criança que cantarola: Chuva, chuva, vai embora! Volta novamente num outro dia!

Sem fôlego a mulher começa a rir, enquanto o homem, desanimado, continua a falar.

Eu espero não ter descontado o meu cheque. Onde está a minha roupa? Procura nos meus bolsos e vê se o cheque está comigo.

Você voltou quando eu tinha saído para te procurar, pegou o cheque na cama e deixou um bilhete que eu não pude entender, defende-se ela.

Você não entendeu o bilhete?

Somente um número de telefone, eu telefonei mas o barulho era tanto que não pude escutar coisa alguma.

Barulho? Aqui?

Não, barulho lá.

Aonde lá?

Eu não sei. Alguém disse “vem pra cá” e desligou e tudo que eu consegui depois foi um sinal de ocupado.

Quando eu acordei, eu estava numa banheira cheia de cubos de gelo derretendo e cerveja. Minha pele estava azul. Eu estava respirando com dificuldade numa banheira cheia de cubos de gelo. Era perto de um rio, mas não sei se era o East ou o Hudson. As pessoas fazem coisas horríveis quando alguém está inconsciente nesta cidade. Eu estou todo dolorido, como se tivessem me dado pontapés escada abaixo, não como se eu tivesse caído, mas como se tivessem sido chutado. Eu me lembro de uma vez que rasparam todo o meu cabelo. Outra vez me enfiaram numa lata de lixo, em um beco e eu acordei com cortes e queimaduras no meu corpo. Gente má abusa de você quando você está inconsciente. Quando eu acordei estava despido numa banheira cheia de cubos de gelo que derretiam. Eu me arrastei pra fora da banheira, fui para a sala e alguém estava saindo pela outra porta quando eu entrei e, eu abri a porta e ouvi a porta de um elevador fechando e vi as portas de um corredor de hotel. A TV estava ligada e havia um disco tocando ao mesmo tempo; a sala estava cheia de carrinhos de chá carregados de coisas da copa, presuntos inteiros, perus inteiros, sanduíches de três andares já velhos e ficando duros, e garrafas, garrafas e mais garrafas de todos os tipos de bebidas que ainda nem tinham sido abertas, e baldes de gelo derretendo… Alguém fechou uma porta quando eu entrei… Quando eu entrei alguém estava saindo. Eu ouvi a porta de um elevador fechar… Tudo espalhado pelo chão daquele quarto perto do rio, coisas, roupas por todo lado… Soutiens! Calcinhas! Camisas, gravatas, meias e outras coisas…

Roupas?, pergunta ela baixinho.

Sim, todo tipo de coisas pessoais e vidro quebrado e móveis derrubados, como se estivesse acontecendo uma briga do tipo vale-tudo na rua e a polícia tivesse dado uma batida policial.

Deve ter havido violência naquele lugar…

E onde você estava?

Na banheira, gelado…

E eu me recordo de pegar o telefone para perguntar o nome do hotel, mas não me lembro se eles me disseram ou não. Me dá um gole de água.

Os dois se levantam e se encontram no meio do quarto. O copo é passado de uma mão para outra com seriedade. O homem começa a bochechar olhando fixamente para ela, e cruza para cuspir a água pela janela. Em seguida volta e devolve o copo . Ela toma mais um pouco de água. De modo carinhoso, ele desliza os dedos pelo pescoço da jovem.

Agora que recitei a ladainha de minhas tristezas, continua ele, o que você tem para me contar? Diga-me um pouco do que está se passando dentro do…

Os dedos dele passam sobre a testa e os olhos dela. Ela fecha os olhos e levanta a mão para tocá-lo. Ele pega sua mão e beija seus dedos apertando-os contra seus lábios. Ao fundo se escuta o bandolim, a chuva… Ela toca seu peito magro e ossudo como de uma criança, toca seus lábios com afeto. Os dedos dele deslizam pelo pescoço dela e pela abertura da roupa enquanto o bandolim toca e toca com mais e mais força. Então ela se volta e se encosta no corpo magro dele curvando o pescoço sobre seus ombros pontudos. A mão dele correndo no pescoço dela quando ele diz:

Faz tanto tempo que não estamos juntos… quase como dois estranhos vivendo juntos. Vamos nos reencontrar e talvez não ficaremos mais perdidos. Fala comigo! Eu estive perdido! Eu pensei em você muitas vezes, porém não podia lhe telefonar, meu bem. Pensei em você o tempo todo mas não podia telefonar. O que eu poderia dizer se telefonasse? Poderia dizer, estou perdido? Perdido nesta cidade? Jogado de um lado para o outro entre o povo como um cartão postal sujo? E depois de desligar o telefone… Eu estou perdido nesta cidade…

A única coisa que botei na boca desde que você saiu foi água!, ela diz quase que alegre, sorrindo. O Homem a abraça com desespero num grito suave e chocado. Nada a não ser café instantâneo até que acabou… e água.

Ela ri. A chuva cai. O bandolim canta.

Você pode falar comigo, bem? Você pode falar comigo agora!, ele quase implora.

Sim!, ela sorri.

Então fala comigo como se fosse a chuva e me deixa ouvir, me deixa deitar aqui e ouvir…

Ele se deixa cair para trás atravessado na cama, vira-se sobre o estômago com um braço caindo do lado, batendo um ritmo no piso com os dedos da mão fechada. O bandolim continua.

Faz tanto tempo que não nos entendemos, ele prossegue. Agora me conta as coisas. O que você tem pensado em silêncio? Enquanto eu era jogado de um lado para outro nesta cidade como se fosse um cartão postal sujo… Me conta, fala comigo como se fosse a chuva e eu ficarei deitado aqui e ouvirei.

Eu… Eu quero ir embora.

Você quer?

Sozinha!, ela volta para a janela. Eu me registrarei sob um nome falso num pequeno hotel na costa…

Que nome?

Anna Jones… A arrumadeira será uma pequena velhinha que tem um neto e ela fala sobre ele… eu sentarei numa cadeira enquanto a velhinha faz a cama, meus braços cairão dos lados da cadeira, e… a voz dela será… tranquila… Ela me contará o que o neto comeu no almoço! Mingau de tapioca… O quarto estará na penumbra, fresco, e cheio de murmúrio da…

Chuva?

Sim. Chuva. A ansiedade desaparecerá.

Sim…

Depois de algum tempo a velhinha dirá, sua cama está feita, Senhorita, e eu direi – Obrigada… Tire um dólar da minha carteira para você. A porta fechará. E eu ficarei sozinha novamente. As janelas serão altas com venezianas azuis e será a estação da chuva… Minha vida será como o quarto, fresco… cheia de sombra fresca e do murmúrio da…

Chuva…

Eu receberei um cheque pelo correio toda semana no qual eu possa confiar. A pequena velhinha irá ao banco descontar meu cheque e me trará livros da biblioteca e pegará minha roupa lavada… Eu sempre terei coisas limpas! Eu me vestirei de branco. Eu nunca serei muito forte nem terei muita energia, porém depois de algum tempo terei energia suficiente para andar na calçada, para passear na praia sem esforço… À noite eu passearei na calçada junto à praia. Eu terei um certo lugar onde me sentarei, um pouco afastada do pavilhão onde a banda toca as músicas de Victor Herbert ao anoitecer… Eu terei um quarto grande com venezianas na janela. Haverá uma estação de chuva, chuva, chuva. E eu estarei tão cansada de uma vida passada na cidade que eu não me importarei de ficar apenas ouvindo a chuva. Eu ficarei tão quieta. As rugas desaparecerão do meu rosto. Meus olhos não ficarão mais inflamados. Eu não terei amigos. Eu nem sequer terei conhecidos. Quando eu ficar com sono, andarei devagarzinho de volta para o pequeno hotel. O empregado dirá, Boa Noite, Senhorita Jones, e eu apenas sorrirei e pegarei minhas chaves. Eu nunca olharei um jornal ou escutarei o rádio; eu não terei a menor idéia do que está acontecendo no mundo. Eu não terei consciência da passagem do tempo… Um dia eu me olharei no espelho e notarei que meus cabelos começam a embranquecer e pela primeira vez terei consciência de estar vivendo neste pequeno hotel sob um nome falso, sem amigos ou conhecidos de qualquer tipo por vinte e cinco anos. Isto vai me surpreender um pouco mas não me incomodará nem um pouco. Eu ficarei contente que o tempo tenha passado tão facilmente assim. De vez em quando eu talvez vá ao cinema. Sentarei nas filas de trás, com toda a escuridão ao meu redor e, ficarei sentada com as pessoas imóveis ao meu lado sem tomarem conhecimento da minha presença. Olhando a tela. Pessoas imaginárias. Pessoas das estórias. Lerei grandes livros e os diários de escritores mortos. Eu me sentirei mais próxima deles do que das pessoas que conheci antes de ter me retirado do mundo. Esta minha amizade com poetas mortos será doce e refrescante, porque não terei que tocá-los ou responder suas perguntas. Eles falarão comigo sem esperar minhas respostas. E ficarei sonolenta ouvindo suas vozes explicando os mistérios pra mim. Dormirei com o livro ainda entre os dedos, e choverá. Acordarei e ouvirei a chuva e tornarei a dormir. Uma estação de chuva, chuva, chuva… Então um dia, quando tiver fechado um livro ou voltado sozinha do cinema para casa às onze horas da noite. Olharei no espelho e verei que meu cabelo ficou branco. Branco, completamente branco. Tão branco quanto a espuma das ondas.

Ela se levanta e anda pelo quarto enquanto continua a falar.

Passarei as mãos pelo meu corpo e sentirei o quanto fiquei leve e magra. Oh, como estarei magra. Quase transparente. Quase irreal. Então compreenderei, saberei, de modo vago, que estava morando neste pequeno hotel, sem nenhuma relação social, responsabilidade, ansiedades ou perturbações de qualquer tipo por quase cinqüenta anos. Meio século. Praticamente uma vida inteira. Nem sequer me lembrarei dos nomes das pessoas que conhecia antes de vir para cá, nem da sensação de ser alguém esperando por alguém que… talvez não venha… Então saberei… olhando no espelho que pela primeira vez chegou o momento de andar sozinha mais uma vez na calçada com o vento forte batendo em mim, o vento limpo e branco que vem do princípio do mundo, ainda mais além do que isto, vem do princípio do espaço, ainda mais além de qualquer coisa que haja além do princípio do espaço…

Ela senta novamente, sem muita firmeza, perto da janela.

Então sairei e andarei pela calçada. Andarei sozinha e serei empurrada pelo vento e ficarei pequenina, pequenina.

Amorzinho. Vem para a cama, ele chama.

A mulher torna a se levantar, com dificuldade, e segue em direção ao homem, a chuva caindo, o bandolim soando.

Pequena, pequena, pequena e mais pequenina e pequenina! Até que finalmente não teria mais corpo e o vento viesse me tomar em seus braços brancos e refrescantes para sempre, e me levasse embora!

Sentado à beirada da cama, ele a segura e aperta a boca contra seu pescoço, os olhos cheios de nuvens, como o céu molhado que castiga a cidade com a chuva que não cessa. Mas ela se solta e volta para o centro do quarto soluçando descontroladamente.

Eu quero ir embora… Eu quero ir embora, ela fala baixinho de forma dolorosa.

O homem suspira e, se levantando, caminha até a janela onde se debruça, ao passo que ela se senta na cama. As luzes da cidade piscam doídas e a chuva cai ainda mais forte. O vento sopra frio e ela, tremendo, cruza os braços contra o peito. Seus soluços morrem. O bandolim já não toca mais, apenas a chuva, a chuva, a chuva, enquanto ela diz:

Volta para a cama. Volta para a cama, meu amor…

E o homem se volta para ela com uma expressão perdida.

A chuva cai.

Livre tradução da obra de Tennessee Williams.

Estou apaixonada por esse texto.

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2 Comentários Add your own

  • 1. rafaela  |  20/09/2010 às 11:03 PM

    enquanto lia, fui percebendo que são textos assim que nos/me fazem dar todo um mérito aos dias de chuva.
    hoje, por sinal, parou por aqui. mas, enquanto esteve, me vieram coisas do gênero – docemente cinzas – à mente; nem sempre, porém, alcanço o doce, só o cinza… [pura falta de capacidade]

    chuva só me lava assim – e até que gosto, melancólica que sou. =)

    =***

    Responder
    • 2. Marjorie Bier  |  21/09/2010 às 12:57 PM

      Rafa, acontece o mesmo comigo. Comecei a ler valendo Tennessee esses dias e fui indo, indo… quando vi, estava mergulhada nesse texto, buscando, inclusive, as montagens teatrais que já foram feitas tendo ele como base. E são lindas. E esse texto é demais. Dói por dentro, na surdez ou na mudez alheia, nos desencontros verbais, no barulho da chuva que insiste, insiste… e depois fica tamborilando fundo na cabeça da gente.

      A chuva me toca com suas mãos pequenas sempre e sempre.

      Responder

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