Velha História

30/08/2010 at 12:37 PM 10 comentários

Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente.

E desde então, ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelo café. Como era tocante vê-los no “17”! o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial…

Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho: “Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!…”

Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água. E a água fez redemoinho, que foi depois serenando, serenando… até que o peixinho morreu afogado.

Mário Quintana in Lili Inventa o Mundo, 1976.

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10 Comentários Add your own

  • 1. GuiMaron  |  30/08/2010 às 12:44 PM

    OOOWWWLLL, que coisa linda …

    Não tem modo melhor de começar uma semana do que lendo teu blog, só tem coisa linda …

    =***

    Responder
    • 2. Marjorie Bier  |  30/08/2010 às 1:06 PM

      Eu amo de paixão esse texto.

      Beijo, seu fofuxo lindo!

      Responder
  • 3. Renata  |  30/08/2010 às 2:52 PM

    Quintana…
    Sempre Quintana…

    Beijo,
    Doce de Lira

    Responder
    • 4. Marjorie Bier  |  30/08/2010 às 3:01 PM

      Re… esse livro é uma delícia… sou apaixonada!

      Beijo, sua linda!

      Responder
  • 5. Paty Rodrigues  |  30/08/2010 às 7:20 PM

    e quantos peixinhos não matamos por achar que alguém pode amá-lo melhor?!

    xero,flor!

    Responder
    • 6. Marjorie Bier  |  30/08/2010 às 8:12 PM

      Ou quantos não tiramos do lugar onde estão e quando nos damos conta já o transformamos tanto que somos incapazes de reverter o estrago?

      beijo

      Responder
  • 7. Marininha  |  31/08/2010 às 1:35 PM

    Ai, adoooooro!
    😀

    Responder
    • 8. Marjorie Bier  |  31/08/2010 às 1:39 PM

      Mário Quintana é tudo de bom sempre, né?!

      Beijo

      Responder
  • 9. rafaela  |  31/08/2010 às 3:35 PM

    li essa fofura em algum outro livro dele…

    Quintana é tão vida! =)

    =*

    Responder
    • 10. Marjorie Bier  |  31/08/2010 às 4:16 PM

      Esse texto está em várias antologias, mas nasceu no LIli… eu adoro!

      beijo, amorinha

      Responder

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