Vende-se tudo

17/06/2010 at 6:36 PM 8 comentários

Martha Medeiros

No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos.

O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento.  Uma outra mãe, ao meu lado, comentou:
– Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.
– Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.

Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes.

O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa.

Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi.

Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante.

Eu convidava para subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas.

Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu, mais sem alma.

No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tevê. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros..

Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material.

Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo.

Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar.

Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que se torna cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida…

Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile. Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade.

As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio. Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa.

Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza.

(Obrigada pelo texto, Rafélis)

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Out ® Comédias da vida privada I ®

8 Comentários Add your own

  • 1. rafaela  |  17/06/2010 às 6:49 PM

    é o tipo de coisa, florinha, que todo ser humano – naquilo que o classifica como tal – deveria saber.
    sim, é difícil, não sejamos hipócritas. mas só a consciência disso já valora. quem dera que muitas houvesse por aí…!

    uma pena que seja mera utopia minha – nossa.

    um beijo

    Responder
    • 2. Marjorie Bier  |  18/06/2010 às 4:58 AM

      Tenho a mesma percepção que Martha. Pratico o desapego das coisas materiais nessa vida louca da gente… o que fica ninguém vê.

      beijo, amada. Obrigda pelo texto muitomais que pertinente!

      Responder
  • 3. Enrico  |  17/06/2010 às 9:39 PM

    saudade de ti, alemoa!!!

    Q tal as férias?

    Responder
    • 4. Marjorie Bier  |  18/06/2010 às 4:57 AM

      Rico… saudade igual… ainda nem consegui te dar um abraço. Até quando fica aqui???

      beijinhos

      Responder
  • 5. ℓυηα  |  18/06/2010 às 3:37 AM

    Ai, ai…esse texto me deu asas! ^^

    Beijo, querida!

    ℓυηα

    Responder
    • 6. Marjorie Bier  |  18/06/2010 às 4:57 AM

      Agradecimento à Rafélis que sempre me presenteia com essas coisas lindas…

      Beijo, Luna

      Responder
  • 7. andrio  |  18/06/2010 às 4:53 AM

    Aiiii que delicia… voltarei sempre!!!!!

    Responder
    • 8. Marjorie Bier  |  18/06/2010 às 4:56 AM

      Andriiiioooo!!!

      Delícia é você aqui!!! Que saudade…

      Responder

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