Para uma avenca partindo

08/05/2010 at 3:40 PM 12 comentários

Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viveras superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualqueratraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um diadestes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ……… ………… …………. ………… ………. ……….. …………. ………… ………… ………… ……… ……….. ………… ………… sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.

Caio Fernando Abreu

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12 Comentários Add your own

  • 1. Paulo Ferrareze Filho  |  08/05/2010 às 6:09 PM

    Querideza (gostei🙂 ) és gaucha tb! Que bacana! Sou de Passo Fundo mas vivo nos mares de SC. Teu blog é lindo, cheio de flores! Parabéns! Beijo

    Responder
    • 2. Marjorie Bier  |  09/05/2010 às 7:04 PM

      Amado… que bom tua visita aqui. Loguinho vou lá no entrehermes espiar.

      Um beijo pra você.

      Responder
  • 3. Marcelo Cruz  |  08/05/2010 às 8:53 PM

    O cara era foda.

    Bom final de semana, Mar.

    Responder
    • 4. Marjorie Bier  |  09/05/2010 às 7:05 PM

      Ele continua arrasando os espaços em mim.

      Beijios

      Responder
  • 5. Enrico  |  08/05/2010 às 11:30 PM

    Digno de Lost in Translation.

    Minha flor, bom final de semana.

    Responder
    • 6. Marjorie Bier  |  09/05/2010 às 7:05 PM

      Em uma análise semiótica, com certeza.

      beijinhos

      Responder
  • 7. cynthia  |  09/05/2010 às 11:54 AM

    só muito amor pra me fazer vencer a preguiça e as trezentas tarefas de prof que tenho pra fazer hoje (e ainda terei DE ser mãe, verdadeiramente, lambendo a cria hoje, apesar das trezentas tarefas de prof.). Mas, querida Marj, veja, só o amor a você para me fazer dizer agora, ainda sem o café, do meu amor por você, porque, simplesmente, amor é assim, tá aqui dentro (com ninguém é diferente) e tá brotando, quanto mais se dá, mais renasce. E escolho dar esse amor pra quem faz com que meu coração pule de alegria e felicidade, e você é uma dessas criaturas maravilhosas que tive a felicidade de conhecer. Coisas de mãe, mãe, depois que vira, é, e pronto! E muitos o são sem saber. Veja, Marj, que tem iniciais de MARavilha, que Deus te abençoe hoje e sempre, dizendo, a você, o quanto agradeço a Ele por ter tido a graça de te conhecer nesta vida, nessa via de mão dupla, que só é dupla quando se conhece alguém como você (e Tal e Raf e alguns outros anjos que caíram por aqui em meu colo, em meu solo, que só floresce porque anjos existem). Deve ter sido por isso, por esse amor aos anjos, que coloquei o nome de uma de minhas filhas de Angela.
    Um beijo, Marj, que também tem iniciais de MAR, que é imenso, como você.
    Cynthia

    Responder
    • 8. Marjorie Bier  |  09/05/2010 às 7:09 PM

      Cy

      Cada vez que passas por aqui ou que me envias aquelas mensagens lindas por e-mail ou que simplesmente respiras e nos deixa compartilhar, meu coração faz festa e toca umas músicas bonitas dessas que eu não sei contar. E hoje, porque é dia das mães, eu queria te dizer que lindas são essas coisas que você planta e quão sortudo é teu clã por tê-la de forma tão intensa e tão inteira que eu não consigo explicar. E porque hoje é um domingo comum, eu queria poder te abraçar forte e contar bem baixinho o quanto a minha vida ficou mais bonita e mais doce e mais inteira desde que você, anjinha de asas de algodão, apareceu para passear nesse céu. E sou muitomaisquefeliz por ver essas asinhas batendo e girando em ciranda quando Rafa e Ta se aproximam pra colher estrelas nesse punhado azul que vocês regam tão carinhosamente todos os dias.

      Sou feliz, sou melhor com vocês.

      Beijos, minha lindeza.

      Responder
  • 9. Adriana  |  13/05/2010 às 5:26 AM

    Mar… arejei!
    Fazia de um repente ser mãe de um rebento
    Rebentei hoje repentinamente:
    Are Rama! Chrishna Are Are!
    Voas em nós albatroz douradooooooooo!

    Responder
    • 10. Marjorie Bier  |  13/05/2010 às 12:29 PM

      Adri, minha voadora preferida!!!!

      Bate as asas aqui que eu já fico feliz da vida!!!

      Beijos

      Responder
  • 11. Aline Veingartner  |  22/05/2010 às 4:31 AM

    Nossa, eu queria que não tivesse terminado nunca, é tão lindo que…

    Responder
    • 12. Marjorie Bier  |  22/05/2010 às 2:49 PM

      Caio me toca da mesma maneira, Aline!

      beijinhos

      Responder

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