Da Sexta-Feira Santa ®

06/04/2010 at 12:07 PM 34 comentários

Da minha avó, todos aqui já ouviram falar. Ela tem suas peripécias, suas aventuras e, do que mais gosto, suas ternuras que me pegam pela mão e me levam a algum lugar onde meu coração se embala e, logo depois, adormece. Acontece sempre. Ou quase sempre. Aconteceu na sexta-feira e, na dúvida, deixei no forno para depois.

Até então, a Páscoa sempre foi uma data comum. A função coelho-ovos-ninhos alegrou minha infância e a conotação cristã só durou até a primeira comunhão. Depois disso, minha gratidão era em função da bendita folga no trabalho. E só.

Esse ano, como de praxe, a família começou a se organizar para a reunião na sexta, no sábado e no domingo. Minha avó, muito animada, já fazia seus planos de modo que conseguisse conciliar gentarada e devoção. Havia participado da missa de ramos, distribuído galhos para filhos, netos, vizinhos e agregados, comprado as espécies mais exóticas de peixes e um sapato macio para a procissão. Em vão.

Na quarta-feira, depois de uma faxinada digna de final de ano, minha lindeza escorregou no tapete do quarto. O chão recém encerado acabou com a tradição de décadas e colocou aquela senhora pequena e de olhos claros incrédulos diante da situação.

“Não foi nada grave”, disse o médico. “Mas nada de ficar saracoteando por aí.” Estava instalada a desgraça. Para os almoços, daríamos um jeito: minha mão é boa para a cozinha, minha tia faz uns doces como ninguém e, solidários, cada um levaria alguma coisa para ajudar. Mas, para ela, a grande dor era não poder acompanhar seu Cristo Morto como prova de sua fé.

Após o almoço da sexta-feira, o dia da tal procissão, resolvemos acompanhá-la até a Catedral onde, com auxílio de filhos e netos, sentou-se e, pela primeira vez na tarde, rezou. Além da tristeza de estar alí, totalmente dependente, estava comovida por ter, também pela primeira vez, reunido toda a família no lugar onde se sente confortada e segura. Não discursou, não se mexeu muito. Com água benta da entrada da igreja, abençoou cada um dos seus com uma cruz e um beijo. Ambos na testa. Só depois sorriu.

Conforme a noite ía se aproximando, ela ía ficando inquieta. Sabia que não havia remédio e, por mais que se esforçasse, já havia se dado conta que uns passos a mais não lhe fariam nada bem. Aceitou, depois de alguma insistência, a ideia da sacada (de onde avistaríamos as pessoas uma quadra adiante do apartamento) e do rádio para acompanhar as orações.

Ela estava em silêncio. Os filhos que estavam em visita também. Eu estava sentada ao seu lado, de mãos dadas, quando olho para o lado e vejo um grupo de pessoas caminhando. Olhei para minha madrinha que, como eu, não havia entendido nada. Minha mãe desceu. Voltou perplexa e me chamou: “Mar, aconteceu”. Minha pele arrepiou inteira, engasguei e fui buscar as palavras.

Naquela noite, devotos evangélicos reuniram-se na praça Leônidas Ribas para um show gospel. A rua estava completamente interditada e o trajeto que de costume era usado pelos fieis católicos estava intransitável. Para evitar grandes transtornos, o grupo alterou o percurso, desceu a principal rua da cidade, passou pela frente do cinema e dobrou na Três de Outubro, exatamente na esquina onde minha avó mora, passando bem diante do seu nariz.

Quando ela se deu conta do que estava acontecendo, rezou pela segunda vez, apertou forte a minha mão e disse: “Eu não pude ir até Ele, mas Ele veio até mim”.

Entendi, finalmente, o que era a Sexta-Feira da Paixão. Chorei por todas as vezes que não chorei. E terminei o Pai Nosso antes da minha avó.

*

Gente, esse texto não foi revisado. Saiu quase como um desabafo por algo que eu jamais conseguiria explicar. Beijos.

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Margherita ® Da série Cantadas Metalinguísticas ®

34 Comentários Add your own

  • 1. Eunísia  |  06/04/2010 às 12:20 PM

    Marjorie,
    texto sensível e pelo que pude observar verídico. Certas coisas acontecem e não podemos compreender. Não são coincidências não. O Universo conspira em favor dos seres humanos crentes.
    Bjs,
    Eunísia

    Responder
    • 2. Marjorie Bier  |  06/04/2010 às 12:24 PM

      Foi tão bonito, Eunísia. Ver os olhos da minha avó brilhando me comove de maneira indescritível.

      Beijos

      Responder
  • 3. Luana  |  06/04/2010 às 12:47 PM

    Essa tua vó tem cada coisa linda, Mar.

    E, mais linda ainda, é a maneira como você fica atenta a todas essas coisas dela (só para nos contar depois).

    bj

    Responder
    • 4. Marjorie Bier  |  06/04/2010 às 12:58 PM

      Linda sim, Lu. E isso que não contei nem a metade ainda…

      Beijinhos

      Responder
  • 5. Marininha  |  06/04/2010 às 12:54 PM

    Vovó dilíça!!!

    hahahaha

    Responder
    • 6. Marjorie Bier  |  06/04/2010 às 12:58 PM

      Diliçosa!!!

      =***

      Responder
  • 7. Enrico  |  06/04/2010 às 1:29 PM

    Se sem revisão ficou essa coisa tri sensível, imagina se passasse pelo crivo…

    Tua vó é linda, Mar. Bem se vê que tens muito dela.

    Responder
    • 8. Marjorie Bier  |  06/04/2010 às 1:44 PM

      Ela é mesmo…. sou tri fã!!!

      Beijinhos

      Responder
  • 9. Eduardo Vieira  |  06/04/2010 às 1:41 PM

    Tem como não achar vc linda?

    Bjs

    Responder
    • 10. Marjorie Bier  |  06/04/2010 às 1:44 PM

      Nem tente!

      =*

      Responder
  • 11. rafaela  |  06/04/2010 às 2:05 PM

    minha muitomaisquelinda amiga,
    umas coisas mto estranhas acontecem por estas datas.
    espero msm q a vó esteja bem agora.
    minha mãe teve um ‘princípio de apendicite’ no domingo, crê?
    levantou cedo, me chamou pra ir à missa com ela; eu – céticatodavida – recusei e ela chegou em casa, sozinha, pálida e suando frio…
    eu, com coração apertado, fui lá pro médico com ela, só na segunda – pq ela não quis antes.
    passamos bem.
    vamos ver no q dá…

    beijo, amada
    melhoras na vovó q, praticamente, deu esse presente [mar] pra mim

    Responder
    • 12. Marjorie Bier  |  06/04/2010 às 2:12 PM

      Credo!

      Que tua mamili fique boa logo, que a urucubaca se dissolva e amém.

      Besos

      Responder
  • 13. Clau  |  06/04/2010 às 2:30 PM

    Aaaaiiiiinnn!!!

    Como eu não conheço????

    Responder
    • 14. Marjorie Bier  |  06/04/2010 às 2:41 PM

      Não sei. Mas devia!
      😉

      Responder
  • 15. Suzana  |  06/04/2010 às 3:33 PM

    Que coisa linda…choram vocês daí e eu daqui…obrigada por compartilhares!!!!
    Bjs

    Responder
    • 16. Marjorie Bier  |  06/04/2010 às 3:47 PM

      Que linda, Suzana.

      Bem vinda!

      Beijo

      Responder
  • 17. Rafael Dreweck  |  06/04/2010 às 5:38 PM

    Mar, minha amoranteiga derretida…

    Gosto muito daqui.

    Responder
    • 18. Marjorie Bier  |  06/04/2010 às 5:45 PM

      E eu gosto muito de ti!

      Beijo

      Responder
  • 19. ℓυηα  |  06/04/2010 às 5:45 PM

    Li, chorei.

    Chamei minha colega, lemos juntas…choramos.

    Obrigada por compartilhar algo tão valioso.

    Beijo, querida.

    ℓυηα

    Responder
    • 20. Marjorie Bier  |  06/04/2010 às 5:46 PM

      OOO, Lunita…

      Esse post tem me dado tantas surpresas… que coisa boa.

      beijo e obrigada pelo carinho.

      Responder
  • 21. Clara Morais  |  06/04/2010 às 6:20 PM

    Marjorie

    Essa tua generosidade diante da vida, teu olhar para as coisas tão simples, teu respeito por isso que é tão suave… ingredientes que fazem das tuas palavras essa explosão de sentimentos que provocas em que te lê mundo afora.

    Estou comovida. E agradeço.

    Responder
    • 22. Marjorie Bier  |  06/04/2010 às 6:28 PM

      Eu também estou…

      Generosas são tuas palavras, Clara.

      Obrigada.

      Responder
  • 23. Karina Batistella  |  06/04/2010 às 6:46 PM

    Marjorie, vim espiando e encontrei um link para esse blog.

    Vou me demorar na visita.

    O conteúdo é ótimo, sensível e dá pra ver que teus textos são de tudo um pouco, menos triviais.

    Responder
    • 24. Marjorie Bier  |  06/04/2010 às 6:48 PM

      Seja bem vinda hoje. Seja bem vinda sempre.

      Demore o tempo que quiser… aqui, eu costumo desligar das horas.

      beijos

      Responder
  • 25. Ana Amélia  |  07/04/2010 às 12:09 AM

    Marjorie! Tu me fez chorar…

    Responder
    • 26. Marjorie Bier  |  07/04/2010 às 12:11 AM

      Linda…

      Eu também choro só de lembrar.

      Beijo

      Responder
  • 27. Adriana  |  07/04/2010 às 4:38 AM

    Aguenta coração…
    Tuas palavras singelas e belas
    puras enfim…
    Fez um colar de flores amores dores colores sorrisos!
    Tu és realmente algo sem palavras Mar, apenas és!
    Bigadinhooooooooooo… Me and Ícaro and big family!

    Responder
    • 28. Marjorie Bier  |  07/04/2010 às 12:49 PM

      Adri querideza da minha vida…

      Um beijo florido em ti e nos teus.

      Responder
  • 29. Edith Janete Schaefer  |  07/04/2010 às 5:20 AM

    E acontece!
    Mas só para pessoinhas mágicas como tua avó…
    Que lindo!
    Quando tu contas histórias de tua avó, sempre fico emocionada (lágrimas queridas sempre vem me visitar). Saudade da minha vó Eulalia.

    Responder
    • 30. Marjorie Bier  |  07/04/2010 às 12:50 PM

      Ixi… se te contar a metade é capaz de nem acreditares.

      Beijos

      Responder
  • 31. Bier  |  07/04/2010 às 10:59 AM

    Presente de Domingo de Páscoa da Sexta-feira Santa, uai!

    Responder
    • 32. Marjorie Bier  |  07/04/2010 às 12:50 PM

      LIndeza minha!

      =***

      Responder
  • 33. Fabiane Dornelles  |  12/04/2010 às 7:24 PM

    Pois tu não sabias ainda que as avós são anjos emprestados por Deus para nós que somos inocentes crianças?!
    E elas são eternas…
    Bjs

    Responder
    • 34. Marjorie Bier  |  12/04/2010 às 7:25 PM

      Amém.

      =***

      Responder

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