Felicidade com grama alheia ®

02/03/2010 at 1:52 PM 28 comentários

Costumo ir caminhando até o trabalho. Cidade pequena tem essas vantagens. Tudo e todos ficam muito próximos. Por vezes, até demais.

Não faço o mesmo trajeto. Gosto de variar as ruas e as paisagens todos os dias. Ultimamente, para contradizer minhas opiniões, meu percurso tem sido apenas um. Descobri, entre ideias rápidas, meia dúzia de passos que me fazem susbtituir intermináveis horas de incomodação por uma escapedela generosa às boas recordações.

Foi sem querer, juro, numa manhã de cabeça cheia, pouco antes de chegar em uma esquina para medir a distância até a outra calçada, que me deparei com exatos oito passos calculados uns dias depois.

Existe, entre meu apartamento e a agência onde trabalho, uma casa escondida ao fundo de um quintal – nunca vi suas pessoas – com um gramado muito alto, mal cuidado, entre grades, formando aquele tapete desbotado que mais afasta (talvez seja mesmo essa a intenção) do que acolhe quem chega perto dali.

O que me encanta não é a imagem em si, mas o cheiro que sobe apressado nas manhãs mornas ou nos finais de tarde que se escondem entre lajotas perigosas. Demorei para fixar o olhar na parte escondida do muro. Voltei ao mesmo lugar pela sensação distinta, embora remota, de tranquilidade no meio do turbilhão desses dias que seguem.

Hoje, descobri entre o cheiro forte de mato, um fundo suave de alecrim. Vinha pensando na tese sobre cinema e literatura, na arte por ser finalizada, no oftalmo, no supermercado, nas contas quase atrasadas, na rotina, na cozinha, quando fui jogada à lembrança do chá quentinho, lá atrás no tempo, feito pela babá baixinha e de voz suave, e que me desligou da rotina por oito passos e outros instantes.

Gosto dessas escapadas mentais, dessas fugas no meio do caos. Na falta de terapia, graminha para desopilar. Fiquei pensando nas pessoas com quem convivo, no quanto estão alheias a esses detalhes, no quanto a vida lhes foge sem que se permitam uma parada para respirar. Da mesma forma, imaginei se elas parariam, sem aviso prévio, diante daquela paisagem que, aparentemente, não tem nada a oferecer além de espinho e emprego aos paisagistas de plantão. As boas lembranças estão mais ligadas às sensações que elas despertam do que à imagem que elas lhe dispõem.

Penso o mesmo a respeito das pessoas. De nada adianta seu jardim ser lindo e bem cuidado se o cheiro que ele exala não desperta nada de bom. Ou, pior ainda, se você acha a grama do seu vizinho bem mais verde que a do seu jardim, e esquece de molhar suas plantas ocupado demais espiando por cima das grades de proteção. O seu verde é só seu. E é sincero. Quem gosta de vitrine é brinquedo. O quanto você vai se deliciar no balanço depende do modo como você cuida daquela arvorezinha escondida no fundo do quintal.

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Entry filed under: Perplexidades.

Qualquer lugar ® This too shall pass ®

28 Comentários Add your own

  • 1. Marininha  |  02/03/2010 às 2:06 PM

    Tem aquela frase que tu gosta

    PREFIRO OS Q TEM CONTEUDO AOS Q DEIXAM TD A MOSTRA NA VITRINE.

    Também prefiro gente-verde-sincero!

    Responder
    • 2. Marjorie Bier  |  02/03/2010 às 2:30 PM

      Eita que essa Martha Medeiros tem uns insights bem bacanas, né?!

      Beijinhos

      Responder
  • 3. rafaela  |  02/03/2010 às 2:19 PM

    ai, q amo essas epifanias a la clarice!
    um simples fato e pluft (ou alguma onomatopeia mais bonitinha q simbolize uma doce descoberta)…!

    =)

    beijobeijo

    Responder
    • 4. Marjorie Bier  |  02/03/2010 às 2:30 PM

      Ai, ai Rafélis…. sempre falta tu por aqui!!!

      Amoamo!

      Beijoooo

      Responder
  • 5. Clara Morais  |  02/03/2010 às 2:38 PM

    … e como há gente ocupada com a grama alheia nessa vida…

    Beijos

    Responder
    • 6. Marjorie Bier  |  02/03/2010 às 2:53 PM

      Não tenho muita paciência pra gente assim, flora. Fato!

      beijinhos

      Responder
  • 7. Enrico  |  02/03/2010 às 3:04 PM

    Alemoa

    Também não tenho menor saco pra essa gente fofoqueira, invejosa e seja la mais o que for. Seria tudo bem mais simples se as pessoas se ocupassem mais dos seus vasinhos comprados e floridos do que dos jardins alheios.

    E é isso.

    (cara de fúria)

    Responder
    • 8. Marjorie Bier  |  02/03/2010 às 3:42 PM

      =)))

      A cara de fúria foi ótima!!!

      Lindo!

      Responder
  • 9. roberto  |  02/03/2010 às 3:27 PM

    Pequenos detalhes ofuscados pelo cotidiano moderno. Adorei o texto, bem ao estilo Marjoriano de ser. Me fez recordar de detalhes também ocultos pela necessidade de estar sempre correndo e nunca chegando. Show.

    Responder
    • 10. Marjorie Bier  |  02/03/2010 às 3:50 PM

      A gente anda muito ocupado com nossas cabeças baixas que acaba ignorando, mesmo, coisas que fazem alguma diferença. Até quando a gente não vê.

      Besos

      Responder
  • 11. ℓυηα  |  02/03/2010 às 4:01 PM

    Eu dou um valor enorme a esse tipo de coisa, e gosto de saber quando acontece com os outros.

    O acaso chega, às vezes, em momentos que precisamos tanto, né? Uma paradinha, um olhar, um cheiro que traz lembrança (hoje mesmo falava sobre minha espantosa memória olfativa), e booom : um suspiro mais profundo, um sorrisinho discreto, tantas considerações, uma ideia para postar e compartilhar.

    Adoro!

    Beijos, querida. Parabéns pelo texto, gostei muito, muito.

    🙂

    ℓυηα

    Responder
    • 12. Marjorie Bier  |  02/03/2010 às 5:11 PM

      Querida… minha memória olfativa é impressionante também. Até hoje recordo-me de um doce que minha avó fazia, de laranja, e que deixava os domingos perfumados em minha casa. Dia desses ela repetiu a dose. Senti-me com 4 anos. A-do-ro!

      beijos

      Responder
  • 13. Rafael Dreweck  |  02/03/2010 às 5:05 PM

    O que sempre me faz desligar é aquele cheiro de pão de manhã cedo. Moro pero de uma boulangerie e o aroma me acorda todos os dias. Um atentado a sanidade.

    Responder
    • 14. Marjorie Bier  |  02/03/2010 às 5:16 PM

      Exibido!

      Eu também moro perto de uma “boulangerie”… =)))

      Cheirinho de pão recém saído do forno é mesmo uma delícia, Rafa.

      Beijo pra ti!

      Responder
  • 15. Clau  |  02/03/2010 às 8:40 PM

    Isso aí, Margolis!!!

    Senta a pua em olho gordo de plantão!!!

    Love it!!!

    besos

    Responder
    • 16. Marjorie Bier  |  03/03/2010 às 3:34 AM

      =)))

      And I love you!

      Responder
  • 17. Edith Janete Schaefer  |  03/03/2010 às 7:02 AM

    Puxa… Eu tava precisando disso!! Senti o cheiro da grama!
    Bom te ler Mar!!
    Beijoooooos

    Responder
    • 18. Marjorie Bier  |  03/03/2010 às 12:14 PM

      Agora ando precisando daquele cheirinho de terra molhada… oooo calor!

      Beijo, bonita.

      Responder
  • 19. Paulo Rogério  |  03/03/2010 às 12:44 PM

    Você descreve tais fatos com uma visão suficiente, onipresente, compreendendo quanto as flores do seu jardim se sustentam ao seu cuidado. Lembra-me, contudo, um trecho de minha vida, numa certa cidade, uma certa rua de saíam pessoas, eclodia vida. Tão perto, sem que meus caminhos jamais me levassem a tal via. O que existiria lá de tão bom que me pudesse acrescentar algo na vida? Por falta de variar os caminhos, uma lacuna na minha história…

    Responder
    • 20. Marjorie Bier  |  03/03/2010 às 12:50 PM

      Que bom você aqui depois de tanto tempo…

      Um beijo

      Responder
  • 21. mara  |  04/03/2010 às 1:12 PM

    “O seu verde é só seu!”

    …e o seu verde é o mais convidativo e cheiroso que conheci ultimamente!!

    bjks

    Responder
    • 22. Marjorie Bier  |  04/03/2010 às 1:20 PM

      Tão linda você… sempre!!!

      Beijo, marametade.

      Responder
  • 23. Mari  |  04/03/2010 às 9:50 PM

    Quanta delicadeza!

    Por 8 parágrafos pude sentir o cheiro do teu gramado. 🙂

    Responder
    • 24. Marjorie Bier  |  05/03/2010 às 12:24 PM

      Vamos correr!?

      🙂

      Beijo

      Responder
  • 25. Darlan  |  04/03/2010 às 10:57 PM

    Essas tuas palavras me fizeram viajar à infância…lembrei dos fins de tarde de verão jogado na grama na chácara dos meus avós…Ao mesmo tempo me fez pensar nesses detalhes do presente, que passam despercebidos muitas vezes, e que um dia serão também apenas lembranças…Será que estou aproveitando bem esses detalhes para guardar boas lembranças amanhã?

    Bjos queridona!!!

    Responder
    • 26. Marjorie Bier  |  05/03/2010 às 12:26 PM

      Ai… e eu só penso na cervejinha que a gente devia ter tomado… ou que vai e não sai nunca!!!

      Beijooo

      Responder
  • 27. Régis Antônio Coimbra  |  05/03/2010 às 10:29 AM

    Em Porto Alegre, ir-me de casa ao trabalho a pé leva uma hora. E do centro aos foros mais habituais e próximos, entre 15 e 20 minutos de caminhadas.

    No verão, o caminho e o meio é determinado pelo sol mais do que pela distância. E pela pressa.

    Outro fator é a chuva.

    Pensando bem, por mais urbano que eu me sinta, sou um sujeito muito ligado e pautado pela natureza. E não é só caminhando.

    Responder
    • 28. Marjorie Bier  |  05/03/2010 às 12:27 PM

      Pois… tenho me sentido assim ultimamente.

      Estou aprendendo a gostar de cidadezinhas pequenas, cheirinhos de terra… porco e galinha não que eu tenho medo!

      Beijo

      Responder

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