Cortesia com chapéu alheio

07/02/2010 at 6:11 PM 23 comentários

Houve um tempo de minha vida em que não adquiri simplesmente nenhuma calça nova. Quase nenhuma meia, uma ou outra cueca. Um tempo em que não adquiri nenhum hábito realmente novo, não contraí vício por nenhuma banda ou bebida nova – e olha que minha banda preferida acabou-se nessa época.

Nesse tempo, lí muito menos do que lia antes, e antes eu era um universitário preocupado em fazer tudo que desse tempo. Quem lê pouco, escreve pouco. Não foi propriamente uma parada no tempo, uma época congelada, mas por um período eu acreditei nessa coisa de ser bacana.

Ser bom de coração, ser simples e tal, relaxar diante da vida. É gostoso, é como parar pra tomar um ar antes de chegar no topo da montanha (eu nunca estive no topo de nenhuma montanha, ok, Cristo). Mas engana um pouco, se eu pudesse dar conselho a algum miúdo, diria pra nunca acreditar em ser um cara bacana, porque a gente é um animal estranho e tem “conceitos”, e o conceito do que você é nunca é claro.

O miúdo guri merece descobrir suas verdades sozinho, ficarei quieto. Mas não é um caso de pessimismo. É um alerta. Quando “você é você mesmo” (que paradoxo…), você só tem um tempo, um espaço, uma referência: você. E ninguém gosta tanto de você assim. Participar das coisas saindo da figura personal é generoso e necessário.

Conselho até pra gente adulta: apostas, com seu coração, não. Antecipe-se. Dê suas reboladinhas, atenha-se a atividades periféricas antes que suas cuecas envelheçam. Porque no mundo, essas coisas se invertem. O quão bacana você é deixa de ser visível quando é preciso estar lendo um livro novo e ouvindo uma banda nova. Quando é preciso mudar alguns hábitos e tomar atitudes que não venham do coração (crescer é isso, afinal, e só sua mãe te quer criança pra sempre).

Coração não é prefácio, não é cartão de visita. É intimidade, é vinho, é momento nobre. Houve um tempo em minha vida que parece intacto. Um tempo em que ao invés de comprar meias, dirigir um carro, me pós-graduar, eu fiquei dialogando com meu coração, prometendo a ele coisas que eu nunca soube, coisas que eu perdi, e coisas das quais eu nunca vou me acostumar em não ter.

*

É do Leandro Iamin, de São Paulo, o texto de hoje.

*

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Mande um e-mail com foto, dados e o texto, claro, para

marjorie.bier@gmail.com que eu me encarrego resto.

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23 Comentários Add your own

  • 1. Marininha  |  07/02/2010 às 6:21 PM

    Mas quem é esse bonito e fofo moçoilo paulista?!

    (te puxou!)

    Responder
    • 2. Marjorie Bier  |  07/02/2010 às 9:18 PM

      Le…

      =)

      Responder
  • 3. Clara Morais  |  07/02/2010 às 6:35 PM

    Marjorie… esse texto é tão parecido contigo… parece-me parido por ti.

    E esse jovem? Apenas um amigo?

    Beijo

    Responder
    • 4. Marjorie Bier  |  07/02/2010 às 9:20 PM

      Apenas um amigo. Apenas uma pessoa especial. Apenas alguém que eu aprendi a amar pra sempre!

      beijo

      P.S.: é só um jeito educado de dizer que eu gosto de tudo nele e que esse mundo invisível que ele me dá é muito mais que lindo!

      Responder
  • 5. Enrico  |  07/02/2010 às 7:17 PM

    Coração não é prefácio.

    Certo!

    Responder
    • 6. Marjorie Bier  |  07/02/2010 às 9:20 PM

      Também gosto dessa frase.

      =*

      Responder
  • 7. Miss  |  07/02/2010 às 8:21 PM

    “Houve um tempo em minha vida que parece intacto. Um tempo em que ao invés de comprar meias, dirigir um carro, me pós-graduar, eu fiquei dialogando com meu coração, prometendo a ele coisas que eu nunca soube, coisas que eu perdi, e coisas das quais eu nunca vou me acostumar em não ter.”

    Eu estou nessa época…

    Beijo, Mar… um finalzinho de domingo bem lindo pra ti.

    Responder
    • 8. Marjorie Bier  |  07/02/2010 às 9:20 PM

      Obrigada, amorinha…

      Beijo, beijo

      Responder
  • 9. Rafaela  |  07/02/2010 às 9:48 PM

    eu ia destacar o verso do coração tb…
    mas, então, melhor dizer desse tempo essencial semente!!
    cujo fruto é, explicitamente, uma produção bonita dessa.

    amei!

    =***

    Responder
    • 10. Marjorie Bier  |  08/02/2010 às 2:51 AM

      Tá no teu tempo, né!?

      Beijo, florindadomeujardim!

      Responder
  • 11. Nina R.  |  07/02/2010 às 10:32 PM

    Lindo lindo, o texto! As vezes a gente tem medo de sair da nossa zona de conforto, de aventurar um pouco… Mas mudar as vezes faz bem.🙂

    Responder
    • 12. Marjorie Bier  |  08/02/2010 às 2:51 AM

      Obrigada, Nina.

      Volte sempre pra esse céu.

      Beijo

      Responder
  • 13. Lathife  |  08/02/2010 às 2:10 AM

    Poxa, que bonito!
    Só que acho que livros e hábitos também refletem o que está no nosso coração: as escolhas.

    bjs :*

    Responder
    • 14. Marjorie Bier  |  08/02/2010 às 2:52 AM

      Flor… eu acho que ele não disse o contrário…

      Beijo

      Responder
  • 15. ℓυηα  |  08/02/2010 às 2:48 AM

    Rs

    Aos domingos, à tarde, eu chamo meu coração e pergunto : “E aí, bichinho, qual a pauta da semana?”

    Sempre achei que domingos, melancolia pura, são perfeitos para essas conversas.

    Beijo, beijo.

    ℓυηα

    Responder
    • 16. Marjorie Bier  |  08/02/2010 às 2:52 AM

      Teu coração segue pautas???

      Por mais que tente, o meu sempre desafia a agenda. Não dá.

      Beijo, beijo

      Responder
  • 17. Leandro Iamin  |  08/02/2010 às 3:00 AM

    Minha “jovem” (obrigado Clara Morais!) cara-caricatura “fofa” (obrigado Marininha!) estar passeando nesta parede gaúcha das mais batutas me causa ânimo. Fazia tempo que não lia o meu próprio texto. Que barato. Obrigado aos ecos elogiosos-reflexivos que partiram de minhas impressões (de)cadentes. Beijo Mar!

    Responder
    • 18. Marjorie Bier  |  08/02/2010 às 3:31 AM

      Outro beijo…

      Responder
  • 19. Leandro Iamin  |  08/02/2010 às 3:07 AM

    Ps. Meu beijo é só um jeito educado de dizer que eu gosto de tudo em ti tbm e que esse mundo invisível que você me dá é dúca.

    Responder
  • 20. Marjorie Bier  |  08/02/2010 às 3:33 AM

    Mundo, desde sempre, pra mim é você.

    Responder
  • 21. Régis Antônio Coimbra  |  08/02/2010 às 9:16 AM

    Eu dou e vendo conselhos para jovens, adultos e idosos. A primeira coisa importante é ressaltar excessivamente que quem tem de decidir a respeito de cada vida é o próprio vivente de tal vida. Ressaltado isso, somos mais parecidos do que gostamos de pensar e esse desgosto se evidencia conquanto se um ou outro admiramos por esse ou aquele traço, à maioria desprezamos e mesmo os que admiramos não topamos inteiramente.

    Então… os caminhos, os becos com melhor ou pior saída, geralmente não precisa ser gênio para perceber e as exceções são apenas isso.

    No entanto, depois de traçado o caminho, os retornos etc, melhor os assumir. Foi uma tolice, mas foi do meu jeito, demasiado humano e, pior, demasiado eu mesmo. Pois pior ainda é se arrepender e criar uma ruptura na própria biografia: “não sei o que me deu…”

    Deu na telha, a telha era tu, era, tanto pior, tu mesmo a maldita telha. Então a bem diga: “sim, fiz isso… estava procurando tal quimera, eu mesmo, a cara metade, uma carreira… acabei encontrado exatamente isso mas não era como eu nem sabia se queria ou não, pois não havia pensado bem a respeito…”

    Acostumamo-nos a viver sem quase qualquer coisa. Se perdemos até o pau, o seio, o nariz, a honra, o amor, a carreira, os filhos, os amigos… se nos não matamos em seguida, nós nos nobre ou abjetamente acostumamos (tornando duvidosa a distinção entre o nobre e o abjeto).

    Envelhecer é isso e só não nos acostumamos a morrer, pois se trata de uma experiência impossível. Mas nos acostumamos superficialmente a não temer a morte e a nos regozijar pela vida já bem vivida, ainda que, na época das queridas peripécias, tenha sido difícil ou mesmo desagradável.

    Responder
    • 22. Marjorie Bier  |  09/02/2010 às 3:29 PM

      Quer deixar o telefone para os interessados em terapia entrarem em contato!?

      Responder
  • 23. Régis Antônio Coimbra  |  09/02/2010 às 11:13 PM

    Clicando no meu nome, aqui, vai-se ao meu blog onde, no “about” já consta telefones e endereço! Acho que peguei os dados de uma procuração, copiei e colei…

    RÉGIS ANTÔNIO COIMBRA, brasileiro, solteiro, advogado, inscrito na OAB/RS sob o nº 71.534, residente e domiciliado em Porto Alegre, no apartamento 315 do número 242 da rua Roque Gonzales, bairro Jardim Botânico, município de Porto Alegre, estado do rio grande do sul, CEP 90690-270. Celular 51-92314725.

    Responder

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