Posições Sexuais

06/02/2010 at 1:08 PM 17 comentários

Com o Deutsch atravessado no fundo da garganta (devia ser do norte), ainda mais quando bebia um pouco mais, ela me disse em linha muito reta que Juliana era dela. Foi muito estranho descobrir-me numa disputa tão tipicamente feminina. Ainda mais conquanto ambas me pareciam tão femininas e atraentes. Mas uma delas me deu bola e a outra me encarou como outra mulher a cobiçar a mulher dela.
Há quem diga que pareço veado, mas acho que ninguém jamais me encarara como “outra mulher”. Nem aquelas amigas chatas mas gostosas em relação às quais nos iludimos que, entre uma decepção amorosa e outra, um dia, quem sabe, se formos queridos com elas, elas darão bola ou algo mais para nós. Essas nos tiram para trouxas, mesmo.
Uda me tirou para outra mulher. Senti no tom e no olhar.
Uma mulher pode te olhar e falar com ódio, desprezo ou nojo, mas ainda te reconhece como homem, ainda que o mais ridículo dos homens. Trata-se de uma linguagem especial.
Mulheres falam, olham, ronronam ou rosnam para homens com uma linguagem especial que só e sempre usam quando se dirigem a homens. Rosnar não é o melhor exemplo. Ronronar também não é um bom exemplo.
Miar, talvez.
Pois os gatos miam, grosso modo, só para nós. Talvez miem para suas mães também.
Nós, que lhes alimentamos e abrimos portas não somos exatamente vistos como “propriedade” dos gatos, por eles. Estamos mais para mães deles (dizem que a prova é que eles tentam cobrir as fezes… um gato dominante, que se sentisse “dono” do pedaço, não faria isso). E, estranhamente, é um pouco assim que normalmente (quase sempre, mesmo quando nos tentam ferir) as mulheres se dirigem a nós.
Ainda que nos dominem facilmente, se as queremos, elas usam uma linguagem ainda no fundo sempre um pouco gentil, mesmo quando dizem que somos mal dotados, que fingiram todos os orgasmos, ou que estão tendo um caso com nosso melhor amigo que na verdade elas sabem que sabemos que elas sabem que é gay. Enfim… é uma linguagem gentil, eu não disse que era simples.
Coisa totalmente diferente é como mulheres se dirigem umas às outras. É como um gato se dirige a outro. Já notaste? são outros sons. Outro código. Outro protocolo.
Uda me proporcionou essa experiência ímpar. Por alguns instantes, que pareceram durar muito mais do que o relógio confirmaria, ela falou comigo “de mulher para mulher”. Teria-me soado menos estranho e assustador se me houvesse falado no mais áspero tom que a língua alemã permite. Foi em português, foi baixinho, foi íntimo e ao mesmo tempo totalmente umheimlich.
Seja como for, funcionou. Fingi que me a exótica (indonésia) comida da festa gerara uma urgência hidráulica e fugi para o Timor-Leste. Juliana era dela. Se eu fosse mulher ou mesmo uma mulherzinha… – ou se Uda fosse homem – eu teria rido na cara dela (dele?), presumo. Mas eu não estava acostumado àquele jogo ou ao menos não àquela posição naquele jogo. Escafedi-me antes que a coisa fedesse.
Como explicar isso sem plagiar o Kurtz de Conrad/Marlow? Seja com for, entendi um pouco o porquê de serem tão incompreensíveis as mulheres.
É que se muito perde na tradução. Por exemplo, “o horror” vira “disse que te amava”. Se bem que esse exemplo é inverso: um homem tentando dizer o que acha que uma mulher prefere ouvir. Então, quando elas dizem que nos ama, a tradução correta é “o horror”?
Não sei. Mas desconfio que elas querem dizer algo completamente diferente do que nós pensamos que dizemos quando usamos as mesmas palavras. É que a posição é outra.
*
Esse post quem fez foi o Régis Antônio Coimbra, de Porto Alegre.
Para ver seu texto aqui, basta enviar um e-mail para marjorie.bier@gmail.com
com foto, dados para os créditos e o material, claro.
O resto é comigo.

Bom final de semana a todos!
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Entry filed under: Gente é pra brilhar!.

Da leveza e do riso ® Cortesia com chapéu alheio

17 Comentários Add your own

  • 1. Luana  |  06/02/2010 às 4:06 PM

    Homens…

    Beijo, minha flor.

    Responder
    • 2. Marjorie Bier  |  06/02/2010 às 5:22 PM

      Beijo, amorinha…

      Responder
  • 3. Marininha  |  06/02/2010 às 4:50 PM

    Putz!!! machista, meu!

    Responder
    • 4. Marjorie Bier  |  06/02/2010 às 5:23 PM

      hahahahahaha

      Régis deve aparecer por aqui em algum momento. Cruzar os dedinhos para que ele responda esses comentários.

      Beijooo

      Responder
      • 5. Régis Antônio Coimbra  |  07/02/2010 às 12:20 PM

        Bah… total fracasso! Só cinco comentários originários e só de mulheres. Os homens prudentemente evitaram de se manifestar, hehe…

    • 6. Régis Antônio Coimbra  |  07/02/2010 às 11:56 AM

      Só não sou mais machista porque não sou travesti… Afinal, o travesti é o cúmulo do machista: é o cabra macho que se considera melhor que as mulheres inclusive como mulher…

      Responder
  • 7. ℓυηα  |  06/02/2010 às 10:03 PM

    Rs

    Acho que isso se dá porque nós, heterossexuais, temos mania de achar que os homossexuais tem expectativas diferentes das nossas, quanto às relações afetivas. Preconceito (inconsciente) travestido de psicologia de boteco…rs.

    Digo isso com tranquilidade, sem medo de parecer indelicada, porque muitas vezes já pensei da mesma forma.

    ℓυηα

    Responder
    • 8. Marjorie Bier  |  06/02/2010 às 10:42 PM

      Também acho papo de boteco, mas quem tem que responder os comentários é o autor.

      Beijo

      Responder
    • 9. Régis Antônio Coimbra  |  07/02/2010 às 12:03 PM

      Eu ficaria mais com a tese do machismo ou pelo menos de incompreensão do outro gênero. Se há preconceito no que escrevi é, forçando a barra, o do bordão “mulher não é amiga de mulher” (pois são sempre concorrentes).

      Aliás, entendo mais facilmente um homem homossexual do que uma mulher hetero ou homossexual. Aliás… encaro uma mulher homossexual como mulher e pronto. O fato dela ser hetero, homo ou bi para mim não acrescenta maior ruído.

      No conto acima não pretendi tematizar a homo ou heterossexualidade, mas o gênero. A veada do meu conto não sabemos se é homo ou bi e o importante é apenas que é mulher e, por uma peculiaridade colateral, sua atração por outra mulher, trata o narrador como supostamente uma mulher trataria uma rival.

      Responder
  • 10. Rafaela  |  06/02/2010 às 10:05 PM

    eu acho textos… ou melho, qlqr assunto sexista bem boring!
    afinal: cada um é cada um – sendo homem mulher gay transsexual hermafrodita ou sabe-se-lá!
    mas a escrita tá bacana. =)

    beso

    Responder
    • 11. Marjorie Bier  |  06/02/2010 às 10:42 PM

      Beijo, rafélis

      Amo!

      Responder
    • 12. Régis Antônio Coimbra  |  07/02/2010 às 12:10 PM

      Curioso achares aborrecido isso. A questão de gênero, bem ou mal abordada geralmente é muito interessante precisamente pela dificuldade para alguém inserido numa cultura analisar com clareza as formas com os gêneros se caracterizam, percebem e mesmo padronizam.

      Isso de “cada um é cada um” é uma coisa muito anômala e recente, peculiaríssima – e em grande parte falsa ou superficial… ainda – de nossa muito ampla cultura dita “ocidental”. Outras culturas geralmente exigem um “enquadramento” muito mais rígido e a veadagem mais ou menos afetada é um resquício de nossa cultura nesse sentido. Isso é, ser uma bixa louca é uma forma de deixar todos mais à vontade a respeito da sexualidade, pois um homem que tem atração por homens sem ser afetado é muito menos fácil de suportar do que um que atende ao estereótipo.

      Responder
  • 13. adriana  |  06/02/2010 às 10:17 PM

    Afff… após + um dia de calor infernal neste RS deparar com essa querela sobre o sexo dos anjos?
    Ninguém merece!!!! Amor é amor = em todo lado, na vertical e na horizontal, norte e sul, frente ou fundos… Mas ahhh…devo estar mesmo na TPM!
    Beijo Inchado

    Responder
    • 14. Marjorie Bier  |  06/02/2010 às 10:44 PM

      Amor é amor. Também acho.

      Um beijo

      Responder
    • 15. Régis Antônio Coimbra  |  07/02/2010 às 12:13 PM

      Hehe… isso de TPM é muito sexista da tua parte. Ainda que não sejas machista, assim tu reproduzes o preconceito de que mulheres são ou pelo menos ficam loucas quando estão de TPM.

      É mais simples: tens todo o direito de não gostar do que quer que seja por uma questão de gosto ou afinidade, mesmo. A TPM até pode influir mas… enfim, estás a quantos dias da data da provável menstruação?

      Responder
  • 16. Rafaela  |  07/02/2010 às 2:46 PM

    resumindo: boring! ¬¬
    hahahaha

    zoa’!
    eu compreendo q, de protágoras a freud, o Homem tem essa… dificuldade em se compreender – no sentido ontológico, sure! – e lidar qto ao fardo/fato de Ser.
    mas td isso é… bem boring! come on! hahaha

    =***

    Responder
    • 17. Régis Antônio Coimbra  |  07/02/2010 às 4:39 PM

      Eu acho fascinante. Bom… antes de cursar Direito, que tem prazo, cursei Filosofia, que permite discussões potencialmente infinitas (tão estendidas quanto se precise ou queira).

      No vestibular em que passei para Direito na UFRGS em 2002 o tema da redação era “o que é ser homem e o que é ser mulher hoje?”

      Disse que apesar das conquistas das mulheres nos últimos 100 e mais ainda nos últimos 40 anos… estava muito contente de ter nascido homem, pois às mulheres sobram as maiores encrencas, como filhos, homens, dupla jornada…

      Mais recentemente (uns 5 anos), costumo dizer que se Sísifo fosse homem… ninguém ia entender como um destino trágico. Reagiriam com “tá… e daí?”

      Em tempo: eu entendo as mulheres. Ao menos tanto quanto entendo os homens.

      Responder

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