De olhos bem abertos ®

25/01/2010 at 12:40 PM 36 comentários

Gosto de receber amigos. Sempre tem alguém dando o ar da graça em minha casa. Esse final de semana foi a vez de um quase estrangeiro. O moçoilo veio de Algarve/ Portugal e, numa breve passagem pela capital das missões, causou um divertido frenesi. O que eu não esperava é que essa escala mexesse, também, na minha maneira – essa sim estrangeiríssima – de olhar algumas coisas.

Na sexta-feira, depois de muitas risadas e um jantarzinho preparado com carinho, o gajo resolveu querer dançar e conhecer outras pessoas além da minha avó e do meu discreto affair. Não tenho muita paciência para boates, sertanejo universitário e, principalmente, cerveja morna. Mesmo assim, por uma consideração maior que meu mau humor, resolvi arriscar.

Rendi-me ao poder da tequila e esqueci ter sido chamada de tia umas doze vezes e meia. Ele dançava estranho, mas isso também não vem ao caso agora. O importante, já no avançado da hora, é que meu ilustre hóspede estava se divertindo e logo imploraria, exausto, para ir embora. Eu disse logo? Doce ilusão da caquética Pollyana.

Não encontrei o botão off e, muito menos, as palavras para convencê-lo de que não era muito sensato procurar vida na madrugada. Foi dizer que a cidade dormia para que ele resolvesse acordar. Comprou energético, whisky, ruffles e decidiu dar continuidade à noitada em casa, mirando a paisagem escura bem da sacada do meu quarto. Por um instante achei, juro, que seria possível fechar a janela e deixar a dupla falante do lado de fora dos meus sonhos. Só achei. Eles se juntaram em corpo diplomático, exército, e eu precisei capitular.

Entre uma risada e um bocejo, deixei a hora correr. O álcool deu lugar ao café, e o ruffles virou comida de viagem guardada na bagagem do animado freguês. A conversa corria solta até que aquele marmanjo de quase um e metro e noventa de altura resolveu olhar o relógio e procurar o leste para ver o sol nascer. Não demorou cinco minutos para que a natureza se manifestasse e para que, calados, observássemos um espetáculo que todos os dias se apresenta naquele mesmo lugar. Eles se despediram, foram dormir. Eu fiquei ali.

Fiquei muda, calculando o tempo em que moro no mesmo lugar e nunca abri a janela para ver o dia acordar. Minha preguiça, há trinta e três anos, me fecha os olhos e me impede de levantar. Quando o despertador toca mais cedo, abro as cortinas e vejo as torres da igreja escondidas atrás de muitos metros de concreto branco e azul. Praguejo as construtoras, os engenheiros civis, as nuvens cinzas. Olho sempre para o mesmo lado por medo de me cegar.

Assim como o sol, tento imaginar quantas foram as coisas que passaram bem diante da minha janela sem que eu pudesse perceber. Quais foram as pessoas, as cores, as situações que gritaram em minha cortina branca e que eu, mulher urbana e ocupada, jamais fui capaz de ver. “O mundo inteiro está naquela estrada ali em frente”, só não enxerga quem não quer.

Meu nada bobo português seguiu para Porto Alegre ontem à noite. Certamente vai dançar, beber, conversar e, especialmente, ver o sol nascer em outro lugar. Não vimos o amanhecer no domingo, mas agradeci, na rodoviária, o descortinar que ele me ofereceu quase sem querer. Ele riu, me abraçou forte e disse: “teus olhos são grandes assim para caber o que em ti o mundo vê”.

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TRI Identidade Cultural ® Cyber people das missivas ®

36 Comentários Add your own

  • 1. Marininha  |  25/01/2010 às 12:55 PM

    Poi… o ilustre português agora é meu hóspede. Chegou hoje antes do sol nascer. Deve estar dormindo. À noite vamos sabe onde??? ZEEEELLLLIIIIIGGGGG comer muitas coisas gostosas que tu adora!!!

    uhuhuhuhuhuhuhuhuhu

    Responder
    • 2. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 2:52 PM

      Humpf!

      Responder
  • 3. Clau  |  25/01/2010 às 1:05 PM

    Ai, Jizuis!!! hahahahahahah

    Mari disse que ele é um gaaaattttooooo… iiiéééé… há perspectivas, gurua?!

    Vou junto no Zelig… vixi!

    Responder
    • 4. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 2:53 PM

      Ele é lindo na sua inteireza. Vocês vão se dar bem.

      Responder
  • 5. Andrea  |  25/01/2010 às 2:06 PM

    Oie!
    Escuta, como funciona essa história de cartas?
    Fiquei curiosa, cartas que te escrevem?
    Amo cartas! Amo.
    Adora o Cabeça de Ovo? Putz, que sofrimento, quem não tem um em sua vida??
    Insuportavelmente lindos, hehehe.
    Beijos!

    Responder
    • 6. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 2:53 PM

      Vou lá no teu blog te contar das cartas…

      Sir Cabeça de Ovo é essencial nas minhas leituras. Adoro!

      beijo

      Responder
  • 7. Renata  |  25/01/2010 às 2:41 PM

    olhos com fome do que virá, cabe o mundo assim.
    esse português sabe das coisas.

    um beijo, querida querida!

    Responder
    • 8. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 2:54 PM

      Querida… esse português é um universo!

      beijooo

      Responder
  • 9. Enrico  |  25/01/2010 às 3:05 PM

    Marinha, minha mui falcatrua irmã, diz que Pedro Miguel é um lord.

    Eu acho que ele é um baita filho da puta que encontra as coisas mais bacanas pra dizer pras mulheres que sabem ouvir!!!

    hahahahahahahahahaha

    Responder
    • 10. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 4:15 PM

      marinha é ótimo!

      Tua irmã é uma falcatrua mui digna. E Sir pedro é meu lord favorito ever!

      Tá… tu também, bonito!

      besos

      Responder
  • 11. Clara Morais  |  25/01/2010 às 3:46 PM

    Quantas vezes não fechamos os olhos, né?!

    Gosto do bom humor cronicando.

    beijo. boa seman

    Responder
    • 12. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 4:16 PM

      “Perceber é conveber águas de pensamento.”

      beijo. Boa semana pra ti também, flor

      Responder
  • 13. Rafaela  |  25/01/2010 às 3:58 PM

    primeiro os ‘hahaha’ saltitantes – claro; depois a lindeza – de sempre. =)

    adoooro essa coisa q cabe dentro do olho “e o mundo pode ser do jeito que se vê…”

    beijobeijo, florinha

    Responder
    • 14. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 4:17 PM

      Rafélis… somos criaturas do que vemos.

      Amo!

      beijo, beijo

      Responder
  • 15. ℓυηα  |  25/01/2010 às 4:46 PM

    A sacada, a cortina branca, as nuvens, o sol…nada mais será igual, depois disso. Arrisco dizer que nem a tequila e as Ruffles…rs

    Em que bairro está hospedado este ser d’além mar, guria?

    Oops, eu não perguntei nada, nadinha.

    ^^

    Beijos, dois.

    ℓυηα

    Responder
    • 16. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 4:50 PM

      Menino Deus… não sei quanto ao nascer do sol, mas o pôr pode ser bem apreciado do terraço do apartamento da Marina (imagina aquela paisagem avassaladora do Guaíba).

      beijo, bonita

      Responder
  • 17. Roberto  |  25/01/2010 às 6:27 PM

    Pois é mocinha urbana. E dizer que todo santo dia vc perde uma obra de arte única. Sabe porque prefiro trabalhar à noite, nessa época em especial?
    O entardecer me dando boas vindas e o amanhecer desejando bons sonhos.

    Abre essa cortina mulher. Close the Windows and open the Window.

    Responder
    • 18. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 6:38 PM

      Lembrei da musiquinha… open up your heart and let the sunshine in!

      Tens razão, Roberto, eu precisava dessa noitada para abrir os olhos para o corriqueiro. Eita mania de complicar, né?!

      Beijo

      Responder
  • 19. Renata  |  25/01/2010 às 6:37 PM

    Marjorie,

    meus olhos,
    com idênticos 33 anos,
    certamente também deixaram
    de apreciar muita vida pela janela…

    Beijo,
    doce de lira

    PS: já recebeu minha carta extraviada?

    Responder
    • 20. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 6:39 PM

      Frô… ainda não. Um monte de gente enviou e eu ainda não recebi. O correio às vezes encanta e é preciso um condão misterioso para que volte tudo ao normal.

      Logo chega. Eu grito.

      Beijo

      Responder
  • 21. Catia  |  25/01/2010 às 6:54 PM

    Passei, li e adorei!!
    to deixando o primeiro beijinho público… não anônimio… rs.
    muito linda a perspectiva da luz entrando pela janela dos olhos…

    Ainda não postei a carta. Dá tempo ainda?? Estou no Sul, SC.
    bjos

    Responder
    • 22. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 6:59 PM

      Claro que sim. Estou feliz com os seus passeios pelo Céu da Boca e, especialmente, com a possibilidade da cartinha.

      Sabe que, naquele mesmo dia do amanhecer, eu disse para o Pedro, o meu amigo português: nessas horas é que tenho vontade de esquecer a palavra OI e dizer a todas as pessoas apenas BEM VINDO. O tempo todo, a cada reencontro, para que elas saibam o quanto me fazem feliz, mesmo que pareça a primeira vez.

      BEM VINDA!

      beijo.

      Responder
  • 23. Rafaela  |  25/01/2010 às 7:45 PM

    aiiii!!! >.<
    que gay de lindo que ficou!!! hahah
    fica sempre bom tudo por aqui! =P

    beijobeijo

    Responder
    • 24. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 7:52 PM

      hahahahahahahahahahaha

      Sou meio drag, hon!!!

      =***

      Responder
  • 25. Rafaela  |  25/01/2010 às 7:54 PM

    e eu não sei, Lafon???!!!! [com biquinho]

    hahahahahahaha

    Responder
    • 26. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 7:55 PM

      Aie… eu queria ser a Elke…

      Responder
  • 27. Rafaela  |  25/01/2010 às 7:58 PM

    ai, tenho ME-DO! o_o rsrs

    Responder
    • 28. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 8:01 PM

      Aaaahhh… ela só é estranha… a propósito, Elke e Hebe devem ser a mesma pessoa…

      Já pensou se eu quisesse ser o Fofão??? Aí sim seria de ter medo…

      Responder
  • 29. Fabiane Dornelles  |  25/01/2010 às 8:10 PM

    Desculpa me meter na conversa…. vc ser o fofão????????? ahahahahahahahahahahahahhahaha.
    Mas sabjes q o gajo tem razão? Teus olhos tem mesmo essa espressão d q tudo neles se espanta e cabe (se encanta) e desespera viver. E esses cílios (tão lindos. Ai q inveja!!!!!) são como os da Emília, adorável bonequinha curiosa.
    Gostei do novo visual, tem algo infanto-juvenil que não morre em vc. Graças a Deus!!!!!!!!!!!! Q os anjos e santos digam amém!

    Responder
    • 30. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 8:34 PM

      hahahahahaha… Fofão era o bicho papão da minha infância. OOOO medo danado que eu sentia!

      Que bom você aqui, Fabi!

      beijo

      Responder
  • 31. Luana  |  25/01/2010 às 8:31 PM

    Mar, que linda essa carinha nova do teu blog. Feminino, leve, jovem. Essencialmente tu.

    E o que é a percepção desse rapaz?! O mundo cabe sim nesses olhos grandes e verdes.

    Um beijo

    Responder
    • 32. Marjorie Bier  |  25/01/2010 às 8:35 PM

      Lu… quando eu crescer, quero ser suave como você.

      Obrigada. E um beijo.

      Responder
  • 33. Ricardo Valente  |  26/01/2010 às 1:35 PM

    Que bonito o que escreveste! Essa rotina massacrante dá vontade de chorar. Por que só momentos felizes se a felicidade depende de nós?
    Abraço

    Responder
    • 34. Marjorie Bier  |  26/01/2010 às 1:58 PM

      Mas eu acredito em momentos. Acho que a vida é mesmo isso.

      Beijo

      Responder
  • 35. adriana  |  30/01/2010 às 10:33 PM

    kkkkkk….
    Guria linda, dei barrigadas de rir ao ler-te!
    Esses meninos d’além mar causam esse alvoroço ímpar…
    Logo que recebas minha cartinha perceberás!
    Lindos Momentos Aqui e Acolá!
    Abraço Forte

    Responder
    • 36. Marjorie Bier  |  30/01/2010 às 10:53 PM

      OOOOOOO coisa boa!!! Eu também me divirto com essas gentes!!!

      Beijos, queridona!!!!

      Responder

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