Tempo de delicadeza*

26/12/2009 at 1:50 AM 12 comentários

Affonso Romano de Sant’Anna

Sei que as pessoas estão pulando na jugular uma das outras. Sei que viver está cada vez mais dificultoso. Mas talvez por isso mesmo ou, talvez, devido a esse maio azulzinho, a esse outono fora e dentro de mim, o fato é que o tema da delicadeza começou a se infiltrar, digamos, delicadamente nesta crônica, varando os tiroteios, os seqüestros, as palavras ásperas e os gestos grosseiros que ocorrem nas esquinas da televisão e do cinema com a vida.

Talvez devesse lançar um manifesto pela delicadeza. Drummond dizia: “Sejamos pornográficos, docemente pornográficos”. Parece que aceitaram exageradamente seu convite, e a coisa acabou em “grosseiramente pornográficos”. Por isso, é necessário reverter poeticamente a situação e com Vinícius de Morais ou Rubem Braga dizer em tom de elegia ipanemense:

Meus amigos, meus irmãos, sejamos delicados, urgentemente delicados.

Com a delicadeza de São Francisco, se pudermos.

Com a delicadeza rija de Gandhi, se quisermos.

Já a delicadeza guerrilheira de Guevara era, convenhamos, discutível. Mas mesmo ele, que andou fuzilando pessoas por aí, também andou dizendo: “Endurecer, sem jamais perder a ternura”.

Essa é a contradição do ser humano. Vejam o nosso sedutor e exemplar Vinícius, que há 20 anos nos deixou, delicadamente.

Era um profissional da delicadeza. Naquela sua pungente “Elegia ao primeiro amigo” nos dizia:

Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente.

E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha alma

Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera.

Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento.

Se me entediam, abandono-as delicadamente, despreendendo-me delas com uma doçura de água.

Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim

Deprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível

Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher

Mas com singular delicadeza. Não sou bom

Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado

Porque dentro de mim mora um ser feroz e fraticida

Como um lobo.

Esta aí: porque somos ferozes precisamos ser delicados. Os que não puderem ser puramente delicados, que o sejam ferozmente delicados.

Houve um tempo em que se era delicado. E houve um tempo em que, citando poetas, até se citava Rimbaud. Esse Rimbaud que Paulo Hecker Filho acabou de retraduzir no livro Só poema bom e o Leandro Konder reinventou numa moderna trama policial em A morte de Rimbaud.

Pois aquele Rimbaud, que aos 17 anos já tinha feito sua obra poética, é quem disse um dia: “Por delicadeza, eu perdi minha vida.”

Intrigante isso.

Há pessoas que perdem lugar na fila, por delicadeza. Outras, até o emprego. Há as que perdem o amor por amorosa delicadeza. Sim, há casos de pessoas que até perderam a vida, por pura delicadeza. Não é certamente o caso de Rimbaud, que se meteu em crimes e contrabandos na África. O que ele perdeu foi a poesia. E isso é igualmente grave.

Confesso que buscando programas de televisão para escapar da opressão cotidiana, volta e meia acabo dando em filmes ingleses do século passado. Mais que as verdes paisagens, que o elegante guarda-roupa, fico ali é escutando palavras educadíssimas e gestos elegantemente nobres. Não é que entre as personagens não haja as pérfidas, as perversas. Mas os ingleses têm uma maneira tão suave, tão fina de serem cruéis, que parece um privilégio sofrer nas mãos deles.

Tudo é questão de estilo.

Aquele detestável Bukovski, sendo abominável, no entanto, num poema delicado dizia que gostava dos gatos, porque os gatos tinham estilo. É isso. É necessário, com certa presteza, recuperar o estilo felino da delicadeza.

A delicadeza não é só uma categoria ética. Alguém deveria lançar um manifesto apregoando que a delicadeza é uma categoria estética.

Ah, quem nos dera a delicadeza pueril de algumas árias de Mozart. A delicadeza luminosa dos quadros dos pintores flamengos, de um Vermeer, por exemplo. A delicadeza repousante das garrafas nas naturezas mortas de Morandi. Na verdade, carecemos da delicadeza dos adágios.

Vivemos numa época em que nos filmes americanos os amantes se amam violentamente, e em vez de sussurrarem “I love you” arremetem um virótico “Fuck you”.

Sei que alguém vai dizer que com delicadeza não se tira um MST – com sua foice e fúria – dos prédios ocupados. Mas quem poderá negar que o poder tem sido igualmente indelicado com os pobres deste país há 500 anos?

Penso nos grandes delicados da história. Deveriam começar a fazer filmes, encenar peças sobre os memoráveis delicados. Vejam o Marechal Rondon. Militar e, no entanto, como se fora um místico oriental, cunhou aquela expressão que pautou seu contato com os índios brasileiros: “Morrer se preciso for, matar nunca”.

A historiadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna anda fazendo entre nós o elogio da lentidão, denunciando a ferocidade da cultura da velocidade. É bom pensar nisso. Pela pressa de viver as pessoas estão esquecendo de viver. Estão todos apressadíssimos indo a lugar nenhum.

Curioso. A delicadeza tem a ver com a lentidão. A violência tem a ver com a velocidade. E outro dia topei com um livro, A descoberta da lentidão, no qual Sten Nadolny faz a biografia do navegador John Franklin, que vivia pesquisando o Pólo Norte. Era lento em aprender as coisas na escola, mas quando aprendia algo o fazia com mais profundidade que os demais.

Sei que vão dizer: “A burocracia, o trânsito, os salários, a polícia, as injustiças, a corrupção e o governo não nos deixam ser delicados.”

– E eu não sei?

Mas de novo vos digo: sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados.

*Texto sugerido ontem, em resposta ao post anterior, pela minha cyber estrelinha Rafélis.
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Entry filed under: Gente é pra brilhar!.

(de) votos ® Norte ®

12 Comentários Add your own

  • 1. Rafael Dreweck  |  26/12/2009 às 3:38 PM

    Moi jolie…

    Enrico e Marina estão aí? Avise-os, por favor, que chego em Porto Alegre dia 4 de janeiro. Pelo que recordo, eles passariam também o reveillon com vocês. Venha com eles… tenho um abraço guardado pra ti.

    Baisers

    Responder
    • 2. marjoriebier  |  26/12/2009 às 6:11 PM

      Aviso, honey…

      Não sei se conseguirei ir, mas farei o possível.

      Baisers

      Responder
  • 3. Régis Antônio Coimbra  |  26/12/2009 às 5:26 PM

    O entendimento entre pessoas é uma arte frágil e, nesse sentido, delicada. Não vejo necessidade de se ser delicado, mas de se ter consciência da fragilidade da condição humana e das relações.

    Responder
    • 4. marjoriebier  |  26/12/2009 às 6:15 PM

      Mas é exatamente disso que o texto fala…

      Responder
      • 5. Régis Antônio Coimbra  |  26/12/2009 às 6:40 PM

        “Exatamente” não era a proposta. O texto fala tortuosamente disso, hehe. Gostei do texto. Só não ficou claro para mim o que exatamente é de Sant’Anna e o que é teu ou de Rafélis, ou se é todo dele mas há alguma divergência entre o que consta no blog dele (como sendo a primeira crônica do livro “Tempo de delicadeza”) e alguma outra versão “revista e ampliada” – a primeira divergência que notei foi a referência à Che Guevara.

        Em tempo: gostei mais da versão que li aqui, hehe…

      • 6. marjoriebier  |  26/12/2009 às 6:45 PM

        Eu não conheço o blog dele e muito menos o livro. Rafaela indicou o texto, busquei no google, achei esse. E gostei.

        Tá aqui pra quem quiser ler sem ficar divagando onde não precisa.

        Feliz ano novo adiantado.

      • 7. Régis Antônio Coimbra  |  26/12/2009 às 10:56 PM

        “divagar” é mais gostoso…

      • 8. marjoriebier  |  26/12/2009 às 10:59 PM

        Cada um no seu “ritmo”…

        😉

        Enjoy it.

  • 9. Rafaela  |  26/12/2009 às 8:39 PM

    rs ai…
    amadinha,
    esse foi o texto q li tb! e, sim, é de um livro homônimo.
    eu acredito q o q ele diz, ou melhor, sugere – todo (bom) escritor sugere! – e ironicamente inclusive, em algumas partes, é q a delicadeza – esse gesto, há muito, ‘abandonado’ pela humanidade – deve se fazer essência de nós.
    mesmo q, contrária a todo mal estar e selvageria (já tão normais), ela acabe se tornando ‘cruel’ em sua (o)posição. já q uma coisa tão bela atinge-nos de tal forma q pode chegar a ‘doer’… como o próprio amor.

    beijobeijo
    (L)

    Responder
    • 10. marjoriebier  |  26/12/2009 às 8:42 PM

      E fala a voz da sabedoria!!!

      rsrsrsrs…

      Beijo, amora!

      Responder
  • 11. ℓυηα  |  26/12/2009 às 11:52 PM

    Oi, flor!

    Gosto de delicadeza no dia a dia, gosto de sorrisos sinceros, elogios merecidos, afagos…

    Gosto de amor delicado, suave. Reservo meu lado visceral para a paixão, porque, essa sim, ao ser feroz, não nos faz perder nada, só ganhar.

    Beijo, beijo.

    ℓυηα

    Responder
    • 12. marjoriebier  |  27/12/2009 às 12:01 AM

      A delicadeza não deixa de ser visceral, não acha???

      beijo, linda

      Responder

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