Vou ali e já volto ®

17/11/2009 at 11:02 AM 13 comentários

Choca-me a claridade nesses dias que suscedem noites intermináveis de insônia. Não sou dramática a ponto de ficar chorando as pitanguinhas vermelhas do pé, mas alguma coisa se espatifa no universo quando, como ontem, a gente perde alguém que ama muito.

Não vou falar da morte, que fique claro. Sou desajeitada com essas coisas e tenho certo pânico do assunto. Segundo alguns, deveria aprender a lidar com meus fantasmas. Mas, reza a lenda, ainda tenho uma vida para pensar a respeito e essa não é minha pauta do dia.

Quero falar da amizade. Essa coisa meio mágica que acontece quando duas pessoas se olham e toda a saudade se desfaz. Falo isso porque antes de um amigo chegar, tudo é sempre saudade, tudo é sempre ausência, tudo é sempre vazio e insólito.

Gosto de pensar que meus amados, os amigos que tanto prezo, embora distantes, estejam conscientes do que despertaram em mim e do quanto movimento essa engrenagem invisível que nos mantém presentes, mesmo que a ponte aérea seja, por ora, inviável.

Os olhos invadindo mundos. A exatidão quando o coração se revela. Três ou quatro horas da manhã quando um telefone toca. Pode soar estranho, mas não há poesia mais concreta sobre o tema do que essa, da segurança tamanha que cabe na voz de um amigo, do colo sempre tão oportuno ou até dos puxões de orelha muito mais frequentes do que os elogios à nossa desajeitada eloquência.

Hoje eu saí de casa sentindo a boca do Zé numa cena que, no espetáculo Noite, nos causava imensos calafrios. Havíamos errado as marcações algumas vezes. Havíamos caído outras tantas. Esquecido texto, abandonado olhares e, naquela apresentação em especial, ele me recolhe nos braços, me beija a boca (era a deixa) e fala sem que o público perceba: “Agora você morre. Mas daqui a pouco eu te chamo para o chopp”. Na hora eu ri. Fiquei ali, com a minha canastrice dramática, de lingerie e plumas, aguardando a mão que me ressuscitaria para a hora dos aplausos.

Há algumas semanas, recebi uma mensagem dele dizendo exatamente assim: “Sim, morri, mas já estou bem”. Rimos. Conversamos. Trocamos fotos e um telefonema. Enviou-me um filme pelo correio que só chegou hoje. Vou assistí-lo à noite, recolhê-lo em meus braços, pedir o próximo chopp e morrer de saudade.

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Zé Mário Storino Quase

13 Comentários Add your own

  • 1. Ivan  |  17/11/2009 às 11:09 AM

    Obrigado por não ter falado em morte. Você estragaria tudo. Até eu fiquei com vontade do abraço forte do Zé.

    Beijinhos e bom chopp.

    Ivan.

    Na boa, gostei demais do texto. MORRI de inveja.

    Responder
  • 2. marjoriebier  |  17/11/2009 às 11:14 AM

    Um beijo, Ivan!

    Responder
  • 3. Marininha  |  17/11/2009 às 11:41 AM

    Ai, Mariolinha da minha vida… como eu queria estar aí pra ver o filme contigo…

    Responder
  • 4. Enrico  |  17/11/2009 às 12:30 PM

    Mar da minha vida… foi bom ficar horas a fio pendurado contigo no telefone. Apesar das tuas pausas, dos teus silêncios, de um ou outro suspiro se anunciando… Como tu mesmo diz, tu é vida, e é isso que importa agora!

    Fique bem, neguinha.

    Amo.

    Responder
  • 5. Renata  |  17/11/2009 às 1:12 PM

    Amizade, realmente, é algo mágico…

    Portanto, hoje à noite, quando assistir a este filme,
    procure se ater mais à magia deste inusitado e único momento
    que à saudade sabidamente vã…

    Sinta-o presente
    mesmo depois da partida! : )

    Um beijo no coração, querida!

    Responder
  • 6. marjoriebier  |  17/11/2009 às 3:06 PM

    Mari, Rico, Re… é a dor do nunca mais que dói agora.

    Coisa besta admitir isso depois de tudo…

    Beijos

    Responder
  • 7. Rogerio Santos  |  17/11/2009 às 3:27 PM

    Marjorie,
    Passei para retribuir a tua linda visita no meu blog, e me deparei com esse texto tão forte.
    E agora? O que eu vou te escrever?

    O ideal aqui, seria somente o silêncio e um olhar amigo. Pq o silêncio tem muito mais a dizer do que aparenta.

    Mas vou deixar um poema de alguns tempo atrás, que fala sobre a transitoriedade da vida de um modo bem humorado.

    Rodosentimento
    ROGERIO SANTOS

    coração pneu de carro
    desvia dos sobressaltos
    resiste derrapa na curva
    machuca se cai no buraco
    altivo se roda alinhado
    é rei conduzindo vassalo
    até que a morte os separe
    até que termine furado

    Beijos,
    Rogerio Santos

    Responder
  • 8. Miss  |  17/11/2009 às 3:38 PM

    Nossa, que coisa mais linda é essa forma como tu falas de perda e de saudade, exaltando, ao invés da dor, todo o riso e felicidade que ele te deixou.

    É isso flor, doce é lembrar dos momentos felizes e tenho certeza de que é exatamente assim que ele quer que seja.

    Beijão e fica bem.

    Responder
  • 9. Régis Antônio Coimbra  |  17/11/2009 às 4:00 PM

    Eu não exatamente sinto falta dos amigos e outras “pessoas” importantes. Não sinto falta e, nessa falta de sentir falta, enredo-me por vezes em minhas misérias e sofro tola e inutilmente. Então, encontro-me com um amigo e meu contentamento impede que ele possa vagamente imaginar o quanto, sem que eu sinta falta dele, ele me fará quando nos separarmos.

    Quase que a única forma pela qual me pode ver triste um amigo ou outra “pessoa” importante é sendo a causa de minha tristeza. E não adianta estar doente, agonizante nem nada, que nesse caso disfarçarei minha compaixão. Precisa, por maldade, descuido ou incontinência, provocar minha tristeza – o que, aliás, também não é muito fácil, mas alguns conseguem.

    Responder
  • 10. Rafaela  |  17/11/2009 às 4:04 PM

    :/
    compartilho desse fantasma…
    mas mando boa energia procê.

    beijo

    Responder
  • 11. Régis Antônio Coimbra  |  18/11/2009 às 1:18 AM

    E lá estava, tão sem graça
    o cadáver do amigo
    tão cheio de graça

    Não quis chorar, ali
    naquele anticlímax
    da tão solene morte
    consumada e estática

    Dá-me vontade de chorar
    ao te ver tão viva
    no brilho instável do olhar
    entre interrogativo e rogativo

    Dás-me vontade de chorar
    ao me tão fácil provocar
    o ainda mais solene riso frouxo

    Responder
  • 12. Dagilverle de Freitas  |  20/11/2009 às 11:13 AM

    Amar
    amigo
    Amigar o amor
    deixar se levar
    pela dor de amar
    saudade que dói
    lembranças do amor
    guarda na mente e na alma
    A felicidade egoísta
    que é o prazer na dor.
    AMIGOS SE VÃO SEM AO MENOS NOS PEDIR PERMISSÃO PARA DEIXAR A SAUDADE.
    COMO DÓI… DÓI MUITO MESMO. MAS NADA SE COMPARA,COMO “VINGANÇA”,
    LEMBRAR O TUDO DE MÁGICO QUE ACONTECEU QUANDO DUAS INIGULÁVEIS
    ALMAS,SORRIAM,RIAM,SOFRIAM,CHORAVAM NA CUMPLICIDDADE DE UMA INFINITA
    AMIZADE. Um carinho em tua alma. beijuussssssss da
    Daginha Passo de Torres- SC

    Responder
    • 13. marjoriebier  |  20/11/2009 às 11:15 AM

      Daginha… tuas palavras sempre tão oportunas…

      Um beijo.

      Responder

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