Invasões bárbaras ®

04/11/2009 at 11:50 AM 23 comentários

Hoje acordei Clara. Tinha quatro anos a menina quando a gente se conheceu. Costumava usar uma faixa cor de rosa prendendo os cabelos para trás. Falava pouco, mas vigiava a todos com suas bolitas cor de mel. Da miniatura do seu tamanho, observava as cores de outros papéis. Desenhava flores quando estava feliz, estrelas quando sentia saudade do pai e se escondia quietinha quando não queria brincar.

Foi minha aluna, a Clara. Sorria sempre que me via chegar. Tinha seus brinquedos favoritos, seus colegas favoritos e não gostava de cantar. Gostava de ouvir histórias, de se enxergar Lili, de inventar nomes para os insetos que existiam naquele jardim.

De manhã, costumava descansar. Tirava seus sapatos pequenos, sua fralda com bico de dentro da bolsa e sentava no colo para se aninhar. Dormia leve, mansinho, até a hora de brincar.

Entre gangorras e jasmins, colhia pedras, recolhia flores, regava a horta repleta de alecrim. Havia experimentado a goiaba que tinha acabado de cair do pé. A cara de nojo, a manga da blusa limpando a boca e um escandaloso “bleh!”.

Quando se aproximava a tarde, Clara começava a contar. De um a cinco para sentar, de sete a oito para recortar, de seis a dez para pintar. Perdida no seu relógio imaginário, inventava mundos onde só ela podia voar. Criava castelos, fadas, bruxas e até um monstro bom que a ensinava a abraçar. E ela apertava os colegas e apertava os empregados e apertava a mim até ninguém mais aguentar.

Não gostava da hora de ir embora. Ficava ali, esperando sua vez de se arrumar. Entre agendas, mochilas e roupas espalhadas pelo chão, eu observava Clara observar. Tentei, inúmeras vezes, adivinhar o que tanto fazia aquela menina pensar. Ela escovava os dentes, organizava suas próprias coisas e ficava a me olhar.

Certa vez, no tumulto do fim da tarde e me organizando para ninguém se atrasar, vi Clara, sorrateira, se aproximar. Parou a uns dois passos de mim, deu três soquinhos no ar, cruzou os braços e ficou a me olhar. Sorri e continuei a escrever as minhas longas considerações. Três soquinhos no ar, braços cruzados, pé batendo no chão e um furioso olhar. Fingi não ver para não tirar a atenção do menino que esperava para se despedir. Um passo a frente, três soquinhos, a mão na cintura e a frase para amar:

– Estou tocando a “pancainha”, não vai me deixar entrar?!

(Clara deve estar, hoje, com nove anos. Nunca mais a vi. Nunca mais tive notícias. Nunca mais a esqueci.)

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Entry filed under: Perplexidades.

Apenas mais uma de amor ® Verdade ®

23 Comentários Add your own

  • 1. Luana  |  04/11/2009 às 12:08 PM

    Acho tão linda essa maneira como você nos conta a vida… essa menina precisa descobrir esse texto.

    Responder
  • 2. Edu V.  |  04/11/2009 às 12:49 PM

    Sim, eu amo!

    Responder
  • 3. marjoriebier  |  04/11/2009 às 1:17 PM

    Aiai…

    =*

    Responder
  • 4. Edith Janete Schaefer  |  04/11/2009 às 1:34 PM

    Que amor! Uma forte candidata a Macabéa! Pensa, pensa…

    Responder
  • 5. marjoriebier  |  04/11/2009 às 1:58 PM

    Fato!

    Responder
  • 6. Clara Morais  |  04/11/2009 às 1:59 PM

    rsrsrsrs… minha xará genial!

    Adorei!

    Responder
  • 7. Renata  |  04/11/2009 às 2:04 PM

    Que texto mais lindo, Marjorie…
    Encantadora a imagem que guardou de Clara.
    A saudade, para fazer jus ao seu nome, pareceu-me iluminada…

    Um beijo,
    doce de lira

    Responder
  • 8. Enrico  |  04/11/2009 às 2:40 PM

    Essa tua sensibilidade sem tamanho…

    Responder
  • 9. marjoriebier  |  04/11/2009 às 3:03 PM

    Re… linda que só vendo… iluminada, sim…

    Rico… você também é assim.

    Responder
  • 10. Rafael Dreweck  |  04/11/2009 às 4:33 PM

    Eu fico te imaginando agarrando essa Clara e amassando (tipo Felícia) de tão lindo que achaste isso tudo! Acertei!?

    Responder
  • 11. Marininha  |  04/11/2009 às 5:45 PM

    Margoliiiissss!!! Que coisa mais amore essa história dos teus tempos de Educação Infantil… NUNCA TE IMAGINEI PROFESSORINHA!!!

    Responder
  • 12. Mara  |  04/11/2009 às 6:27 PM

    Gostei da Clara!!
    Mara tem muito de Clara,
    ou seria Clara que tem muito de Mara?

    Eu “vivi” o texto!! Parabéns pela sutileza e poesia!

    Responder
  • 13. Marcelo Cruz  |  04/11/2009 às 6:30 PM

    Todo mundo já foi meio Clara um dia… ou não!

    Responder
  • 14. marjoriebier  |  04/11/2009 às 6:31 PM

    Meu trio Mar… é isso mesmo… inundar-se!

    Responder
  • 15. Rafaela  |  04/11/2009 às 7:39 PM

    *adorei o comentário Macabéa!!! rsrsrs

    e, sobre a menina, quem veio primeiro: ela ou a gema?!
    [tá, não teve graça! :/ ]
    hahah

    adorei o texto ritmado, flô!
    lindolindo!

    beijobeijo

    Responder
  • 16. Ricardo Valente  |  04/11/2009 às 10:55 PM

    bem rimado esse texto e profundo. nostalgia e inocência. os que tem a segunda, sempre serão crianças felizes.
    beijo, minha linda!

    Responder
  • 17. Miss  |  05/11/2009 às 12:15 AM

    Que coisa mais linda! Esses pequenos, embora às vezes nos tirem a paciência, também são capazes de emocionar e fazer rir da forma mais sincera possível, não é?

    Lindo demais o jeito como tu escreves! E ainda vem falar elogios a mim, nem acredito! Mas adorei, viu? 😉

    Beijos e beijos! Ah! Te vi lá pelo Céu Aberto hoje, muito bom te ter por lá! 😉 Amanhã sou eu quem posta!

    =********

    Responder
  • 18. Edith Janete Schaefer  |  05/11/2009 às 12:56 AM

    Rafa, me lembrei logo da Macabéa, estava assistindo um trecho do filme na aula no mesmo dia do post!!
    Amo a Macabéa, mas mais ainda a sua curiosidade e ingenuidade.
    beijinho pra Marjorie e pra ti!

    Responder
  • 19. Achutti  |  05/11/2009 às 2:12 AM

    Acho muito afudê o jeito que tu escreve… tô meio sumido aqui, mas sempre acompanhando as tuas palavras! Bjo.

    Responder
  • 20. Rafaela  |  05/11/2009 às 6:15 PM

    Amo amo a Maca tb! essa ingenuidade; a essência da ausência… linda d+.
    depois de ‘a hora da estrela’, nunca mais fui a mesma e, inclusive, em relação à Clarice… mudou tudo…

    outro procê o/

    Responder
  • 21. Fábio Zen  |  07/11/2009 às 12:57 PM

    Que belissimo texto,Marjorie!É engraçado,as pessoas acham geralmente que os personagens são alter-egos nossos…e tem razão.Ou não?Abrç!

    Responder
  • 22. Mone  |  27/11/2009 às 12:26 PM

    Amei, amo e amarei a Clara tb! Menina inesquecivel tanto quanto a mulher que escreveu este texto! To com saudades de voce tocar aqui a “pancainha” para nos visitar!!!! bjos

    Responder
    • 23. marjoriebier  |  27/11/2009 às 12:47 PM

      O amor é da mesma medida, Mone!!!

      Morro de saudade de vcs!!!!

      Responder

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