Carne de tigre com abobrinha ®

13/10/2009 at 1:32 PM 21 comentários

Não é novidade que fui uma criança um tanto imaginativa. Além disso, era mimada, malandra e chorona. Ganhava tudo na manha e ainda me fazia de coitada. Bem típico de moleque criado na rua, de joelho ralado e tatu no nariz.

Da vez que sentei em um formigueiro, lembro da gritaria e da banheira repleta de manchas pretas. Só deixei de ter medo dos montinhos de terra o dia em que minha madrinha apareceu com um bolo formigueiro e explicou que eu podia comer as assassinas.

Mas, o maior recuerdo, é de certa vez em que quis tanto ficar doente para não ir à escola, isso lá pelos seis anos, que a coisa acabou acontecendo mesmo. Reza a lenda que eu tive um febrão tamanho muito e que virei o bicho mais dengoso da casa. Não queria comer, não queria brincar e não queria que ninguém saísse de perto de mim.

Faltei uma semana inteira de aula, vi a família inteira tentando me animar, assisti a todos os desenhos na televisão e me recusei a comer a montanha verde a que era obrigada diariamente.

Essa coisa de comer salada para crescer forte e saudável não funciona com criança. Aprendi a gostar disso depois de adulta e, juro, porque a dieta exigia. Caso contrário, seria a rainha do fast food e das comidinhas exóticas. Carne de tigre com abobrinha, por exemplo.

Sim, o anjo aqui, no auge da enfermidade, resolveu sacanear a vovozinha que estava mais que esmerada em me fazer comer e jurou que, se o cardápio fosse esse, abandonaria a mamadeira e se alimentaria direitinho.

Lembro do meu tio, malandro desde sempre, dar uma piscada rápida para a minha avó e, logo em seguida, sair do quarto em direção à sala. A casa em silêncio, a velhota calada e eu me sentindo a rainha da sabedoria. Para meu espanto, surge o moçoilo com uma espingarda de pressão e um chapéu para a vó. Saem os dois, com aquela cara de Indiana Jones, prometendo o que eu tanto queria comer.

Durante meia hora tive os devaneios mais loucos. Fiquei imaginando se eles teriam mesmo coragem de ir até o zoológico (sim, tigre, para mim, só morava nesse lugar) e resgatar o bicho ou se o açougueiro, baixinho e bigodudo da esquina, teria encomendado a carne só para mim.

Depois da espera, entram os dois pela porta do quarto. Meu tio, com o rosto sujo de terra e a respiração a milhão. Minha avó, com a roupa embarrada, uma bandeja cheia de folhas e um prato com a maior porção possível de bife picadinho e tomate:

– Mar, a carne de tigre foi fácil, mas a abobrinha…

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Do que resta ® Lollipop ®

21 Comentários Add your own

  • 1. Luana  |  13/10/2009 às 1:56 PM

    Marjorie… que delícia essa tua gente!!!!

    É notório que essa imaginação, essa sede de vida, esse amor pelas pessoas tem berço.

    Um beijo

    Responder
  • 2. Rafaela  |  13/10/2009 às 1:59 PM

    hahaha
    ê família boa!

    *eu to aqui comendo uma caixa de bis! =)

    Responder
  • 3. Marininha  |  13/10/2009 às 2:02 PM

    hahahahahahahahahahahahaha

    Como tu conseguia ser malandra tão pequena???? Eu sinto um ódio… minha infância foi coisa mais sem graça perto dessas coisas que tu conta, pirigueti!

    Responder
  • 4. Enrico  |  13/10/2009 às 2:55 PM

    Margolis Maria!!!

    QUE LA-TA!!!!

    Responder
  • 5. Morais  |  13/10/2009 às 3:22 PM

    Hey, Marjorie!

    Claro que podes ‘ ventilar ‘ por aí! Seria uma honra =D
    Quando ventilá-lo, só me avisa pra eu prestigiar em que ‘ ares ‘ eles estão.

    Beijão!

    Responder
  • 6. Jens  |  13/10/2009 às 3:35 PM

    Hehehe, os espertos deram a volta na espertinha. Post delicioso, MB.
    Eu, quando guri, dei muito pontapé em formigueiro, mas chutar nunca, hehehe…

    Beijo e uma boa semana.

    Responder
  • 7. Jens  |  13/10/2009 às 3:37 PM

    Ops, leia-se sentar ao invés de chutar. Foi mal…

    Responder
  • 8. Rafael Dreweck  |  13/10/2009 às 3:43 PM

    hahahahahahahahahahahahahahahahaha

    Deram cambão na malandraaaaagggggeeeeemmmm!!!!

    Saaaalve, dona Girrrrrda!!!

    Responder
  • 9. Régis Antônio Coimbra  |  13/10/2009 às 3:51 PM

    Não lembro de acreditar sequer em Papai-Noel, mas lembro de contar histórias incríveis sobre o que tinha acontecido durante a tarde, no Jardim de Infância e não ter certeza se era verdade ou fantasia o que eu contava.

    Lembro, também, de perder um duelo de ameaças no Jardim de Infância. Eu e um outro ficávamos dizendo que “…então, meus tios vão lá na tua casa e vão dar um pau nos teus pais”; “…então, meus tios e os colegas de trabalho dos meus pais e dos pais e vão dar um pau em todo mundo…”

    Foi minha primeira corrida armamentista. Ou a primeira que perdi. Chorei e não consegui explicar o por quê.

    Das façanhas parentais, acho que nada supera a vez que minha mãe, comigo, quando eu tinha uns 4 anos, teve sua bolsa arrancada por um pivete próximo à Rodoviária cá de Porto Alegre. Espantosamente, ela perseguiu o pivete e pegou a bolsa de volta. Sorte dele que ela não estava com seu arco-e-flechas:

    Mas o pensamento mais mágico de que me lembro com clareza era relativo a uma sugestiva bolsinha de carregar óculos, fechada com um zíper, e que minha mãe usava como carteira. Para mim era uma espécie de cornucópia da qual eu via sair uma quantidade inesgotável de dinheiro e nunca via entrar dinheiro. Minha conclusão era a de que a bolsinha tinha a propriedade mágica de gerar tanto dinheiro quanto fosse necessário.

    Responder
  • 10. marjoriebier  |  13/10/2009 às 3:56 PM

    Rafito… dona Girds é ninja!!!

    Responder
  • 11. Clara Morais  |  13/10/2009 às 4:04 PM

    rsrsrsrsrs…. que delícia de história!!!

    Responder
  • 12. Morais  |  13/10/2009 às 4:18 PM

    Ah, valeu, Marjorie =D
    depois me passa o link ! Sabe, isso é super importante pra mim, afinal de contas, a caminhada é longa até que conseguir ser um colunista.

    beijo :*

    Responder
  • 13. Miss  |  13/10/2009 às 5:08 PM

    Nossa, a criatividade lhe é inerente desde os mais tenros anos!

    Lembrei agora do meu sobrinho, de três anos, super criativo, querendo me enrolar na hora de lhe dar comida na boca…as três primeiras colheradas de “aviãozinho” até que deram certo, depois disso ele: “tia, a porta do aeroporto fechou…” ¬¬

    Beijos, querida. Linda semana pra ti! 😉

    Responder
  • 14. Edu V.  |  13/10/2009 às 6:18 PM

    Tem como não amar essa mulher?

    Responder
  • 15. marjoriebier  |  13/10/2009 às 6:19 PM

    =}

    (nem tente!)

    Responder
  • 16. Renata  |  13/10/2009 às 9:06 PM

    Com exceção da abobrinha,
    que delícia de lembrança! (risos)

    Beijo!

    Responder
  • 17. Fábio Zen  |  13/10/2009 às 11:24 PM

    Hahahahaha!Olha esse teu revival da infancia é uma terapia!Não para!Não para!

    Responder
  • 18. Gian Fabra  |  14/10/2009 às 3:54 AM

    Ei, não gostei…
    eu (pequeno) achava q era um tigre…
    vc me comeu!?! rsrs

    Responder
  • 19. marjoriebier  |  14/10/2009 às 3:59 AM

    MUAHAHA!!!!

    Responder
  • 20. Roberto  |  14/10/2009 às 7:42 AM

    Primeiro veio o Orgutinho vó, agora apareçe tigre com abobrinha (pelo visto uma abóbora assassina). Estou começando a ficar com um pé atrás com vc… Se, desde pequena vc manipulava (ou tentava) as pessoas, imagina agora depois do trem crescido?

    Responder
  • 21. marjoriebier  |  14/10/2009 às 11:10 AM

    hahahahahaha

    Agora ninguém mais me dá bola e eu virei a “artista” da família… segundo meu tio, vai passar!

    Responder

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