Dos ciganos e outras ausências ®

02/10/2009 at 4:25 PM 19 comentários

Mário era como a madrugada: perto de acordar, mas ainda cheio de sono. Era um menino feito de coragem e medo. “Ele tem os olhos líquidos”, repetia o avô. E a casa observava, em silêncio, o mar e o rio que haviam nomeado as suas águas.

Acreditavam que a sua vontade de partir tinha vindo do desamor. Tudo em sua casa já andava ocupado demais. As cadeiras, as camas, os pratos. Até mesmo o carinho distribuído. Por muitas vezes ele duvidava de tudo. Pensava ser um cigano esquecido em porta de família alheia.

Quando eles, os ciganos, surgiam, Mário se fazia rarefeito e ficava perambulando por entre os panos. Percorrendo a cidade, invadindo ouvidos, o seu caminhar promovia sonhos. Entre os sons de violinos e guitarras, de suas bocas ele ouvia um canto bonito, em língua diferente, que até mesmo o silêncio aquietava para escutar. Com os corações ameaçados, a cidade dormia. Em seus sonhos havia fugas, amores, pequenos barcos, grandes mares.

Foi então que descobriram o seu outro segredo: ele comungava a vontade de fazer-se atraído pelos ciganos e ser roubado por eles. Porque ser roubado é o mesmo que ser amado. Só roubamos aquilo que nos falta.

E ele só queria ser ausência, mesmo que fosse  a ausência dos ciganos.

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Entry filed under: Perplexidades.

Tateando estrelas distraídas ® Please, don’t stop the music!

19 Comentários Add your own

  • 1. Marininha  |  02/10/2009 às 4:58 PM

    Ai que essa neguinha me mata de emoção… tão boniiiito!

    Responder
  • 2. Régis Antônio Coimbra  |  02/10/2009 às 5:26 PM

    Ser roubado, ser percebido como uma ausência. De fato, por exemplo, quem cumpre, não faz mais que a obrigação. Já quem falta… esse é notado, anotado e mesmo cobrado.

    Há quem falte ou falhe para se valorizar. Ser cobrado significa que ainda têm alguma esperança de que possamos cumprir. Lamentações não exatamente representam a esperança de solução, mas o reconhecimento do outro como, ainda ou ao menos, um ouvido, um alguém. Mas há quem fale com as paredes.

    Falhar, ainda, é uma forma louca de testar o amor. É como se pensasse> se me amam porque sou magnífico… assim qualquer um consegue ser amado. Mas se sou medíocre ou mesmo péssimo, aí sim, é amor.

    Mas não é bem assim que realmente funciona. Se sou péssimo e sou amado, sou uma desculpa do outro para não resolver seus próprios problemas, pois tem que resolver os meus, os problemas que lhe causo, e isso liberta: tira o pesado (para a maioria) fardo da liberdade ou responsabilidade por si mesmo.

    Ser um traste livra da liberdade ou responsabilidade por si mesmo. Mas cuidar de um traste também. Tem até um termo técnico: co-dependência.

    Grande parte do idealização do amor romântico e do amor familiar se calca nisso: amar apesar dos defeitos, sem esperar nada em troca etc. Isso tudo apenas expressa o quanto o amor dado geralmente é uma questão da pessoa consigo, tendo no outro apenas um pretexto.

    Já o amor cobrado, esse sim depende mais do outro, tem no olhar do outro um elemento essencial. Mesmo assim, a questão não é tanto com a outra pessoa. É consigo mesmo. Calca-se em ver se consigo atrair o olhar, simpático, cobiçoso ou irritado do outro sobre mim, sobre minha imagem.

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  • 3. Roberto  |  02/10/2009 às 5:28 PM

    Quantos “Marios” sufocados há nesse mundo. Quem de nós já não se sentiu um “Mário” por tantas vezes? Não desejou seguir aquela estrada cujo fim está longe do alcance de qualquer visão, buscando, sonhando com ciganos ou ciganas……complicado.
    Muito profundo, reflexivo. Já sei quem culpar pelo próximo porre.

    Responder
  • 4. Clara Morais  |  02/10/2009 às 6:17 PM

    Que suavidade, Marjorie… admiro esse teu jeito de passear entre as palavras…

    Responder
  • 5. Zé Dylan Walker  |  02/10/2009 às 6:25 PM

    Muito bom! Somos todos ciganos…
    Bj

    Responder
  • 6. marjoriebier  |  02/10/2009 às 6:47 PM

    Obrigada pela preferência… voltem sempre!

    rsrsrsrs

    Responder
  • 7. Enrico  |  02/10/2009 às 6:50 PM

    Vai a merda, Marjorie Bier! Como tu consegue escrever isso: Porque ser roubado é o mesmo que ser amado. Só roubamos aquilo que nos falta.

    Poooouuutttzzz!!!

    Responder
  • 8. agendapublicidade  |  02/10/2009 às 6:55 PM

    Crujes, Mary Jane!!! Tu é alta desse jeito pra caber tanta palavra!

    Responder
  • 9. marjoriebier  |  02/10/2009 às 6:59 PM

    !!!

    (vai trabalhar, guria!)

    Responder
  • 10. Ricardo Valente  |  02/10/2009 às 7:12 PM

    Como gostos destes continhos enxutos e tão cheios!
    Tu é boa (nessa concordância memo)
    hehehehehehe…hi

    Responder
  • 11. marjoriebier  |  02/10/2009 às 7:55 PM

    rsrsrsrsrs… bisbilhoteiro de orkut alheio!!!!

    Responder
  • 12. Rafaela  |  02/10/2009 às 7:58 PM

    muito lindo, flô!!! *-*
    o texto consegue exalar, sinestesicamente, a essência do tema…
    ‘dorei!

    besos

    Responder
  • 13. Rafael Dreweck  |  02/10/2009 às 9:37 PM

    Afiadinha no conto… gosto muito!

    Responder
  • 14. Cezar  |  03/10/2009 às 12:30 AM

    Melhor que isso só dois disso… he, he, he. Quero mais.

    Responder
  • 15. Paulo Rogério  |  03/10/2009 às 1:14 AM

    “Com os corações ameaçados, a cidade dormia.” Essas palavras me levaram à infância. Ciganos não só roubam, devassam! Como escreve bem e com tamanha freqüência. Beijos, Marjorie!

    Responder
  • 16. MissUniversoPróprio  |  03/10/2009 às 3:02 PM

    Mais um texto maravilhoso, inspirado e emocionante… As palavras parecem curvar-se e permitirem-se ser domadas sob teu comando.

    Um ótimo fim de semana pra ti e obrigada pela visita e carinho lá no blog, a música que você me deixou lá é mesmo maravilhosa.

    Um beijo, querida! 😉

    Responder
  • 17. fale com ela  |  06/10/2009 às 12:44 AM

    Cheguei aqui pela Lu. Muito bacana este texto. Vou me demorar na visita… bjo

    Responder
  • 18. Kaique Colombari  |  08/10/2009 às 12:18 AM

    Escreve lindamente, linguagem macia, mas forte! Adorei tudo, deixa a porta aberta que logo eu volto.

    Responder
  • 19. Dona Ervilha  |  20/01/2010 às 9:36 PM

    Que texto bonito. Gostei muito.
    Bjo.

    Responder

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