Paralelas ®

24/09/2009 at 2:16 AM 17 comentários

Rosa era uma menina comum. Sonhava com as mesmas cores e as mesmas impressões que sua mãe, sua avó, sua irmã maior. Gostava de imaginar a vida em quadros milimetricamente distribuidos. Frações de espaço e de tempo onde fantasiava e criava o que nos dias lhe faltava.

Por vezes, ficava apenas a olhar. A pouca idade lhe ensinara as flores, mas era com dores que havia aprendido a brincar. No botão dos seus treze anos, carregava a saudade do pai e a verdade do mundo. Perdera, aos cinco e pouco, a referência e a credulidade. Vivia de esperanças montadas e rastros, pequenas pistas deixadas entre a memória e o coração.

(essa menina existe… analfabeta, aos 13, está inscrita num projeto de leitura, por vontade própria, para fugir da dor da casa)

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Poeminha analógico ® Desejo*

17 Comentários Add your own

  • 1. Pedro Miguel  |  24/09/2009 às 2:34 AM

    Sempre te admirei pelas ideias… nesse caso, te vi vvivendo. Te apoio no na dissimenação da cultura, da arte, de tudo que doer menos no ser humano.

    Sinto saudade de vc sorrindo.

    Responder
  • 2. Régis Antônio Coimbra  |  24/09/2009 às 3:02 AM

    No não dito podemos imaginar um mar de sentimentos a travar as palavras. Como exprimir aquilo que nem conseguimos entender. Por vezes um balbucio, um grunido, um gemido, um suspiro.

    O que se não pode dizer, se tenta evocar. Ou nem se tenta. Ao contrário, tentamos guardar, e também não conseguimos. O silêncio tem sua eloqüência, não raro inconveniente.

    O engano, o mistério o desvio… não são privilégios do não dito ou só pela metade. Ao explicar demais, em lugar de precisar, complicamos, eventualmente exprimindo a mais verdadeira essência truncada e ambivalente de nosso sentir.

    Quem mais ama não raro também mais odeia. Não é só rancor. É ódio mesmo, querer mal, que sofra, que morra. Se não se volta para o outro, para o malvado/malvada, se volta para o amoroso/odioso que se culpa, deprime e sofre uma lenta meia-morte.

    Por outro lado, quem odeia assim também homenageia. O pior é a indiferença, se bem que por vezes seja preferível. Outro tanto a indiferença pode ser o estágio terminal da meia-morte decorrente do colapso desejante.

    O amor romântico se vai, o amor próprio morre na sequência e essa epidemia vai consumindo a multidão interna dos desejos, das esperanças que definham em ilusões, que agonizam em desesperos e por fim se amansam num sonífero cansaço.

    Pela manhã, mecanicamente sai-se ao sol que arde no rosto e não incomoda, quando deveria incomodar. Mas como alguém que não quer mais nada se incomodará com algo?

    Tanto faz. No último estágio se deixa de querer morrer. É o fim do túnel, não porque se dele saiu, mas porque se deixou de o considerar caminho. Não se pretende mais sequer sair.

    Então, se te ainda desgostas, regozija-te. Vai passar.

    Eu passei. Continuo respirando. Não gosto de sol, prefiro chuva e céus cinzentos. Grandes (mas temporárias) reconquistas.

    Regozijo-me, revisito-me, relembro-me, repito-me. Felizmente não é preciso.

    Responder
  • 3. Marininha  |  24/09/2009 às 1:05 PM

    Que tão bonita, que tão sofrida essa menina pelos teus olhos…

    Responder
  • 4. Miss  |  24/09/2009 às 1:07 PM

    Meu Deus, que texto maravilhoso. Pequeno no tamanho, porém enorme na emoção que causa. Lindo lindo. Adorei!

    E acabei lendo também os comentários…e que comentários, heim, uau! Esse texto aqui de cima é simplesmente maravilhoso, vou já curiar o blog!

    Beijos e flores multicoloridas pra vc!😉

    Ps. adorei o comentário e a citação de Fernando Pessoa que você fez lá no blog, viu? Ele era (e continua sendo, visto que sua obra não morre!) mesmo um mestre nas palavras. Obrigada!😉

    Responder
  • 5. Marcelo Cruz  |  24/09/2009 às 1:18 PM

    Querida Marjorie!
    Muita coisa acontece aos 13. Fase onde tudo se mostra tão confuso, intangível. Ambos já passamospor isso e sabemos como é. O que me atormenta (e acredito ter te agredido) é o fato dessa menina não saber ler. Escola pública existe… foi descaso familiar, visto que ela está buscando fugir exatamente onde ela não alcança?
    Conversamoscom calma em pvt.
    Meu beijo

    Responder
  • 6. Fábio Zen  |  24/09/2009 às 1:22 PM

    Meninas e meninos como essa do teu texto existem aos montes,buscando a expansão de seu restrito e miseravel universo na leitura.O percentual que é abduzido pelas letras encontra ali tudo,ou quase tudo que precisa.Claro,afeto é díficil,mas provavelmente encontrara como administrar a falta dele…

    Responder
  • 7. marjoriebier  |  24/09/2009 às 1:26 PM

    Também acho, Fábio… mas concordo com Marcelo… aos 13. Faço parte desse projeto há 2 anos, nunca havia pego um caso de analfabetismo como esse. Devem haver outros, e é nisso que estou focando a pesquisa agora.

    Responder
  • 8. Rafael  |  24/09/2009 às 2:08 PM

    É, neguinha… isso vai dar pano pra manga.

    Responder
  • 9. Régis Antônio Coimbra  |  24/09/2009 às 2:16 PM

    A propósito, minha avó materna era analfabeta, surda e muda. Por isso mesmo, era um gênio da comunicação. Não aprendeu nenhuma linguagem de surdos oficial, estruturada etc. Chomsky – seu lado bom, não menos polêmico, mas pouco midiático – gostaria dela. Pois ela desenvolveu sua própria técnica de se comunicar com qualquer um. Indo direto ao ponto, era fofoqueira.

    Mas não era exatamente triste. Aliás, nem vagamente o era. Em sua oitava década, mais uma complicação, a catarata. Era mulata de olhos vagamente azuis, que ficaram mais azuis. Como a progressiva perda do controle do corpo em Nietzsche, em Firmina (o nome de minha avó materna), a libertou da realidade e em lugar de a oprimir, a libertou.

    Acreditou-se grávida em decorrência de seu caso com o padre da paróquia. Deve ter reclamado e outro tanto se gabado. Pensemos: em sua mente adolescente do início do primeiro quartel do século passado, no interiorzão e extremo sul do Rio Grande do Sul… supor-se grávida do padre é se ver numa epopéia.

    Sem nunca ter lido nem tido acesso à tradição oral, por alguns meses minha avó materna foi homero e foi também Helena, e gestou Criseide, em decorrência de seu relacionamento com Crisis. Então corrigiu-se a catarata e a realidade se impôs clara e distinta para minha avó, que se curou inteiramente de seu delírio não exatamente bizarro enquanto ela não se pode ver – e não se fez questão de lembrar – com oito décadas.

    Enfim, Rosa pode ir longe. Pode vir a ser a avó genial de alguém, embora a tristeza precoce não seja promissora. Se ela for palhaça e eventualmente perceberes uma profunda tristeza, isso pode ser promissor.

    O conflito indica o esforço e, enfim, a força para sustentar o conflito. Apanha-se bastante mas também se conquista algumas vitórias nem sempre de Pirro. O delírio de minha avó é um exemplo.

    Mas uma aberta tristeza predominante é menos promissora. Nem Schopenhauer era o tempo todo triste. Era antes rabugento, mas de um modo engraçado e criativo.

    O triste da tristeza persistente, assumida e sem ilusões é sua aridez. Se há reclamações, há esperança. Se há desdém, há esperança. Se há ilusões, há, de um modo torto, esperanças ou pelo menos alguma criatividade que pode levar a soluções engraçadas ou, como as cartas de amor, pertinentemente ridículas.

    Ah, claro. Mas para se meter nas cartas e outras manifestações ridículas Rosa precisa aprender a ler. Ou a fofocar como minha avó. Será ela assim sempre tão admiravelmente triste? Torço para que ela tenha um lado bagaceiro que ela disfarçou ou que, se não disfarçou, não te chamou a atenção. Mas esse é traço mais comumente em comum entre as pessoas.

    Ser admirado é um perigo. Compaixão também não é algo bom de se ser objeto. Melhor o sujo rir do mal lavado, e vice-versa, em fraterna hipocrisia.

    Responder
  • 10. Enrico  |  24/09/2009 às 3:59 PM

    Que coisa complicada… faz parte daquele projeto de alfabetização que participas ou é outra coisa?

    Responder
  • 11. Luana  |  24/09/2009 às 4:21 PM

    Marjorie… é um problema que assombra o país. Em cidades menores, eliminar o analfabetismo é mais fácil (mas não menos árduo), pois os conglomerados são menores. Fico imaginando em estados onde a miséria é tanta que a farinha acaba virando artigo de luxo, não as palavras.

    Soube que entraste em contato com o Ministério de Educação e Cultura. Como ficou isso?

    Responder
  • 12. Andressa  |  24/09/2009 às 4:58 PM

    Uma fuga sábia.
    Amei florzinha, o título vestiu bem.
    Bjs

    Responder
  • 13. marjoriebier  |  24/09/2009 às 5:09 PM

    Isso pq tu não viu meu vestido Little Cure que acabou de chegar (o link ali do lado). Vais morrer de achar lindo! rsrsrsrs

    Brincadeiras a parte… Luana, me manda teu msn por e-mail. É um papo para pvt!

    Responder
  • 14. Gian Fabra  |  24/09/2009 às 7:55 PM

    gentileza, altruísmo, sensibilidades, senso crítico…
    que outros perigos se escondem por trás desses olhos (deixe me advinhar) verdes?

    Responder
  • 15. marjoriebier  |  24/09/2009 às 8:05 PM

    Eu tenho os olhos de Diadorim, Gian…

    =}

    Responder
  • 16. roberto  |  25/09/2009 às 3:13 PM

    Seria lindo se não fosse trágico. Bah guria, é de chorar. Às vezes me deparo com certas cenas no trabalho que me fazem chorar escondido, que me revoltam, que me derrubam. Viva o país do carnaval e do futebol. Lindo texto.

    Responder
  • 17. Rafaela  |  26/09/2009 às 3:55 PM

    é o nosso mundo, marj…

    Responder

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