Nunca te vi, sempre te amei ®

15/09/2009 at 1:36 PM 19 comentários

Fui convidada a escrever cartas de amor. Justo eu, a rainha das cartas mentais, escrevendo cartas para serem entregues e respondidas por alguém que eu nunca abracei.

A proposta surgiu faz tempo, do editor de uma revista para a qual escrevo. Depois de ter lido um texto chamado Carta Extraviada, ele resolveu juntar dois ilustres desconhecidos para trocarem impressões, uma masculina e outra feminina, sobre esse tsunami que é o sentimento humano. O texto era um desabafo-sofrido-longo-e-chato escrito para exorcizar uma relação igualmente sofrida que havia chegado ao fim, não tinha a intenção de sair da gaveta e virar pauta editorial.

Na tal carta, eu discorria sobre os desencontros do amor, as falibilidades das relações e as expectativas quase sempre frustradas tanto de uma parte quanto de outra. Era uma carta para ficar. Despretenciosa, nunca se imaginou selada, enviada e, muito menos, respondida. Minhas dores e meus amores ficariam ali, navegando por entre papéis até serem esquecidos.

A diferença, agora, é que há um interlocutor. Uma pessoa que eu nunca vi, mas que admiro e respeito desde a primeira palavra que trocamos. Nos “conhecemos” há três anos. Ele acompanhou o fim do meu casamento, eu acompanhei o fim da relação dele, e o mais próximo que chegamos das cartas de amor foi com a troca de poemas, uns sorrisos pela webcam, um punhado de músicas e intermináveis tardes de chuva. “Nunca te vi, sempre te amei” numa versão pós-moderna e pra lá de virtual.

Ele é jornalista. Demasiado humano, como diria Nietzsche. Conhecedor profundo das suas dores, dos seus tropeços, desses golpes que a vida dá. Eu sou o que sou. Verbo calado e entranhado na boca, falta de jeito legítimo para falar da montanha-russa que é o coração.

Não sei como vou me virar com essa novidade. E nem se, no meio da história, não vou pegar a mochila e entrar no primeiro avião para trocar uma respiração. A verdade é que se abriu um mundo novo, e é nesse mundo que eu quero viajar.

(as cartas começam a ser publicadas em novembro e, provavelmente, haverá um blog para que todo mundo possa acompanhá-las)

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Poliglota ® Latente ®

19 Comentários Add your own

  • 1. Clara Morais  |  15/09/2009 às 2:18 PM

    Nossa! Coisas lindas virão! Adoro teu texto em prosa… quero acompanhar!

    Responder
  • 2. Luana  |  15/09/2009 às 2:40 PM

    Marjorie… podíamos usar essas cartas como gancho. As palestras são para 2° e 3° anos (a fase das paixões platônicas). Eles irão gostar.

    Os e-mails que te envio estão retornando. Há algum outro endereço?

    Responder
  • 3. Dauri Batisti  |  15/09/2009 às 2:41 PM

    Você escreve manso, fácil de ler. Bom de ler. Fico imaginando então o que virá. Bem… o amor faz.

    Um beijo.

    Obrigado pela visita ao ESSAPALAVRA

    Responder
  • 4. Rafaela  |  15/09/2009 às 2:59 PM

    dizem q as coisas boas levam tempo pra acontecer; as ótimas… acontecem de repente.
    vai q esse diálogo-passional fique 10! =)
    ah, mas deve ficar mesmo, claro!

    besos

    Responder
  • 5. Rafael Dreweck  |  15/09/2009 às 3:52 PM

    Marjorie Bier e suas cartas de amor nunca enviadas… eu li esse texto (o da carta extraviada) e não achei longo e chato. Sofrido… mas de uma sensibilidade brutal.

    Quem é o cara?

    Responder
  • 6. marjoriebier  |  15/09/2009 às 4:12 PM

    Gente… serão cartas de amor onde não importam os selos e nem as datas em que foram postadas. Com sorte, amores que alcançaram seus finais.

    Responder
  • 7. Jens  |  15/09/2009 às 5:29 PM

    Oi MB.
    Com a referência a “Nunca te vi, sempre te amei” você conquistou a minha admiração intelectual. Quanto às cartas, escreva, revele-se, alucine… Só não faça como a Helene Hanff, a Duquesa de Bloomsbury, que demorou tanto para ir a Londres que quando chegou na 84 Charing Cross Road não encontrou mais ninguém.
    Pra cima com a viga, guria.

    Um beijo.

    Responder
  • 8. Sidnei Olivio  |  15/09/2009 às 5:32 PM

    Marjorie, obrigado pela visita e comentários. Gostei muito do que li por aqui. Abs.

    Responder
  • 9. Enrico  |  15/09/2009 às 6:35 PM

    Eu gosto muito quando tu fala de amor… tem conhecimento de causa para linhas e mais linhas…

    Estou curioso.

    Responder
  • 10. CARLOS SOARES  |  15/09/2009 às 6:58 PM

    Sensacional.Me lembrou um filme antigo “Nunca te vi,sempre te amei”. Deu saudades. E tmbém,assim num relance,me lembrou também filme Central do Brasil com Fernanda Montenegro, filme inteligentíssimo,gostoso. Tenho certza que vi~rao velas cartas por aí e estarei atento. Agradeço sua visita.E peço que voltesempre.beijos

    Responder
  • 11. Marcelo  |  15/09/2009 às 11:20 PM

    Puxa, bacaníssimo teu blog!

    Essa idéia é legal, é bem provável que dê certo!
    Boa sorte!

    Voltarei aqui, sim. Vale a pena. (:

    Um beijo.

    PS: te “achei” no orkut também.🙂

    Responder
  • 12. marjoriebier  |  15/09/2009 às 11:41 PM

    E pq não add, Marcelo???

    besos

    Responder
  • 13. Marcelo Cruz  |  16/09/2009 às 1:52 AM

    Meu amor… vai ser lindo!

    Responder
  • 14. Marininha  |  16/09/2009 às 3:48 AM

    PARABÉNS, ALEMOOOOOOAAAAAAAAAAAA!!!!!!!

    TE AMO MUITO!!!!

    Responder
  • 15. marjoriebier  |  16/09/2009 às 3:58 AM

    Obrigada, IIIIIIInnnnnnnhhhhhaaaaaa!!!!

    Responder
  • 16. Régis Antônio Coimbra  |  16/09/2009 às 12:09 PM

    O promissor projeto e a sugestão de Luana forçaram-me a lembrar de minhas primeiras cartas de amor, na adolescência. Diferente da tua carta de encerramento para ti mesma, as minhas se pretendiam algum dia lidas pela minha idealizada amada. O problema é que eu não conseguia chegar perto dela… então, as cartas se acumulavam.

    As preliminares desse represamento foram pré-adolescentes, assim: éramos colegas de aula na 5ª série do então primeiro grau (aproximadamente correspondente ao atual ensino fundamental), fomo-nos aproximando… Eu a queria e nem sabia bem o que fazer se a tivesse. Ela mandou uma amiga perguntar se eu queria namorar com ela e mandei responder que sim.

    Tá… E agora? Em cinco minutos de namoro não consegui chegar tão perto quanto antes, não consegui responder mais do que “sim”, “é””, “hum-hum”. Vendo minha inibição, ela disse sob forma de pergunta retórica que talvez tivéssemos mais jeito como amigos do que como namorados e não consegui achar ou dizer salvo “hum-hum”, “é” ou algo assim.

    Não nos recuperamos totalmente desse namoro. Um novo patamar de tensão se estabeleceu. Acho que foi a combinação desengonçada do modelo pré-adolescente de namoro com os primeiros sinais da puberdade ou do fim da “fase de latência”. Lembro de olhar a moça e pensar no que gostaria tanto de fazer com ela e não conseguir imaginar a cena como verossímil, e essa inverossimilhança me paralisava.

    Bom, a tensão levou a percalços, incluindo, lá pelas tantas, a proibição da mãe dela para nossos encontros fraternais… e esse represamento determinado pela mãe dela levou-me a tentar continuar as conversas mediante cartas e desenhos que não tinha muito como enviar. Primeiro desenhos…

    Isso, da minha parte, durou anos… anos do florescimento púbere. Ela, com toda razão, via-me com estranheza. Eu passava casualmente por ela e mal conseguia dizer “oi!” Certa ocasião tive uma forte recaída e novo surto de cartas… que, novamente, não sabia muito bem como entregar. Numa, para simplificar a resposta da parte dela, elaborei um questionário, algo ao estilo:

    se queres namorar comigo, marca um “x” no parêntese: ( )

    se não queres namorar comigo, desenha um fígado no verso desta folha.

    Mas como entregar as cartas? Isso envolvia dois problemas: como reunir coragem e como, com ou sem coragem, entregar as cartas?

    Um dia a vi voltando para casa dela da nova escola em outro bairro e por acaso um amigo estava com uma veloz bicicleta. Pedi emprestado a bicicleta do amigo, pedalei acelerado até em casa, peguei o calhamaço de cartas e, “só com uma mão”, pedalei também acelerado de modo a interceptá-la antes que entrasse nos domínios de sua mãe que nos proibira o contato (o que, reconheço, ajudou muito a persistência e exacerbação de minha obsessão).

    Como as caricaturas do britânico embaraçado de John Clease em “um peixe chamado Wanda”, puxei um formalíssimo papo furado e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, entreguei o calhamaço de cartas (incluindo a do questionário)… algo como “ah… escrevi umas cartas para ti que não tive oportunidade de entregar…” Sem mais papo furado para amortecer meu pânico, despedi-me e fui devolver a bicicleta ao amigo.

    Essas foram minhas primeiras, adolescentes, cartas de amor ou algo assim. Muuuuuuitas mais viriam, voltadas para minha psicanalista Karla. Não as entregava por entender que ela não era paga para ler cartas, mas as comentava parcialmente nas sessões. Lá pelas tantas concluí o óbvio de que não escrevia para Karla, mas para uma idealização dela… e passei a escrever no início delas não mais “minha querida Karla…” mas “minha querida Karta”.

    Mais adiante (foram quatro anos só com essa), concluí que isso de escrever cartas era uma como que “transferência lateral” (uma forma de resistência ao tratamento) e parei com isso. Mas foi muito bom para mim, literalmente.

    Verdadeiras cartas de amor foram muito mais casuais. As escrevi e remeti sem dar por isso, como diria Fernando Pessoa sem , talvez, tanta malícia quanto eu ao usar sua expressão. Mas, sim, como as dele, eram ridículas.

    Responder
  • 17. Mateus Luciano  |  16/09/2009 às 12:39 PM

    espero que possamos trocar esperiencias
    para o bem dos leitores
    cartas, gosto muito de cartas!

    Responder
  • 18. Bier  |  16/09/2009 às 12:39 PM

    Marjorie querida:
    Encantamento. É isso o que me percorre quando te leio. E que bom o resgate dessa comunicação epistolar numa época em que a rapidez nos obriga a trocar a resposta carinhosamente pensada pela eficácia pasteurizada de superfícies. Acho que é por isso – essa urgência de justifição afirmação – que, depois do século XIX, nunca mais tivemos um grande discurso social. Aí vem você, minha filha primeira, e bota o coração na luz. Mais: faz disso uma partilha. Hoje, dia 16, na data do teu aniversário, eu te agradeço por teres vindo.
    PS: No meu blog tem um poema pra vosmecê, que tá no livro.

    Responder
  • 19. Fabio Basso  |  16/09/2009 às 3:49 PM

    “Privacidade = priva cidade”

    Deveríamos privar os outros de nossos encontros e desencontros .
    Ou não ! (já dizia Caetano)
    Porque no final, todos queremos ser vistos, e lembrados, e falados,
    e criticados, e elogiados e finalmente, nunca esquecidos.

    Na minha lápide, escreverei :
    “Tive medo de ser mais um… tive medo de ser um só.. ”
    Que venham as cartas.

    Responder

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