Contra azia e má digestão ®

09/09/2009 at 2:04 AM 21 comentários

Adoro descobertas históricas, especialmente quando o assunto não tem nada a ver com o que estou pesquisando. Lia sobre Tolstói quando me deparei com a invenção do cachorro-quente. O que uma coisa tem a ver com a outra ainda é uma incógnita, mas acredito que a tendência subversiva de um excêntrico sanduíche daria um retrato sugestivo e profundo da anarquia cristã do século XXI.

É Sexta-feira Santa, sua família inteira viajou, você acordou às quatro e meia da tarde e não existe, num raio de 20 km, nenhum restaurante aberto com o cardápio de peixes exigidos pela ocasião. O que fazer? A carrocinha de cachorro-quente. Quem nunca violou alguma regra imposta pelo catolicismo que coloque o dedo aqui. Eu já fiz dessas coisas, e fiz mais, e nem por isso fui excomungada ou vi meus anjos da guarda acenando em despedida. Como o autor de Guerra e Paz, eu também busco a simplicidade, a autonomia e a não violência, embora acredite na transgressão como forma genuína de ascenção celestial.

Ora, se Deus que nos é tão caro e gentil se importar com uma escorregadinha dessas, imagine o que não fará com os pobres famintos que juntam seus “mirréis” e imploram por um pedaço de pão a cada santa ceia em que as famílias pasteurizadas sorriem através de janelas fechadas. Viva o hot dog popularizado nos anos 50 e que saiu das telas dos drive-in direto para as esquinas embriagadas desse país de meu Pai do Céu!

O lance não é o rango, bicho, é a transgressão. Se ela mata a fome, então, é mais sagrada do que um dogma. Meu pai é quem tem razão, “pensamentos complexos, digestões simples”.  E eu assino embaixo.

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O que ficou do casamento Caridade ®

21 Comentários Add your own

  • 1. Enrico  |  09/09/2009 às 5:20 AM

    Marjorie viaja na batatinha… e eu vou junto. Coisa mais bonita tu pensando bem!

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  • 2. Régis Antônio Coimbra  |  09/09/2009 às 11:39 AM

    As regras católicas eu já nem transgrido, pois nem as considero faz muito tempo. Acho que perdi a fé um pouco como os marranos, só que no meu caso o conflito foi entre umbanda, espiritismo e outros cultos meio demoníacos, animistas e primitivos, de um lado, o lado mais familiar e íntimo, e catolicismo, religião mais sofisticada e tal, mas do lado burocrático e francamente burro do colégio em que estudei até a 5ª. série do então primeiro grau (mais ou menos equivalente ao atual ensino fundamental) que de quebra forneceu também um curso acelerado para a primeira comunhão.

    O curso, muito, mas muuuuito mal oferecido, mostrou-me uma caricatura grotesca da fé católica. Daquele jeito, nem que eu fosse meio retardado não ia dar para acreditar. Pergunto-me se os que crêem o fazem realmente em relação àquilo que preguiçosamente alguns dizem ser a fé católica – e, quando cursei Filosofia, vi que não era…

    Resumindo, o curso me fez encarar a religião à sério e me fez concluir de modo cabal que não acreditava em milagres, santos, anjos, demônios, pecado, confissão, no velho e no novo testamento. Mas me formei, comi – sem mastigar – Jesus (que, anos depois, eu vim a ouvir e ler frequentemente que me ama…) e acho que levo mais a sério os ritos católicos (dando-me ao trabalho de respeitosamente me abster de fazer mera pantomima) do que os crentes e praticantes.

    Espiritismo e umbandismo não tiveram destino melhor. Também fiz curso. Um dia o “evangelizador” (bem melhor do que o padre, aliás) apresentou um caso em que um sujeito que morreu telefonou depois de morto e comentou umas coisas que só ele poderia comentar… Conclusões: a alma é imortal e Deus existe. Eu tinha uns 14 anos e formulei as seguintes objeções:

    -como extrapolar, supondo que o caso fosse verídico, do fato do morto telefonar alguns dias depois de morto, que todos sobreviviam assim (ou seja, podia ser um evento excepcional alguém sobreviver a morte, não a regra) e, mais ainda, que sobrevivesse para sempre (ou seja, não apenas por alguns dias, meses…)

    -o que tinha a ver a alma ser imortal ou sobreviver algum tempo com Deus existir ou deixar de existir? Não poderia Deus existir e a alma sobreviver só em alguns casos e por algum tempo… ou nunca sobreviver à morte do corpo? E não poderia Deus não existir e a alma ser mais ou menos, geral ou excepcionalmente resistente à morte do corpo? Enfim, não eram questões independentes?

    Enfim… crítico desse jeito, é-me impossível o prazer dessas transgressões. Mas consigo fazer gozações. Acho que nem são gozações com as crenças alheias, mas com a humana necessidade de crenças. Um amigo muito querido um dia concluiu: não acredito em Deus, mas O temo… – esse consegue transgredir. Não porque acredite, mas porque teme (hoje bem menos), e isso lhe dá ainda um pouco daquele gostinho especial ao cachorro quente (ou churrasco mesmo, para afrontar a vizinhança católica de Bento Gonçalves, onde mora e é severa autoridade estatal) na semana santa.

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  • 3. marjoriebier  |  09/09/2009 às 11:43 AM

    Na próxima, vou de churrasco também. De carrocinha, provavelmente.

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  • 4. Régis Antônio Coimbra  |  09/09/2009 às 11:54 AM

    Ah… em breve o Ministério da Saúde perseguirá os comedores de carne vermelha e gorda e de embutidos embutidos em pão… nas semanas santas ou profanas. Ou seja, o perigo nunca foi a religião, mas o estado. O problema da santa inquisição não era que fosse ou não santa, mas sua promiscuidade com o poder estatal.

    Superadas as religiões oficiais, ultimamente o vácuo tem sido preenchido pelo politicamente correto (que tem seus méritos) e pela noção exagerada de saúde pela dignidade humana. Em tempo: a inquisição queimava o corpo do pessoal para lhes preservar a dignidade da alma imortal – e essa conversa de alma imortal, como observou Hegel, foi de onde surgiu essa noção de especial dignidade do indivíduo, que, observo eu – sem originalidade, espero – deu nessa nossa noção contemporânea de dignidade humana.

    Mão fumo. Mas bebo, como carne gorda e vermelha mal-passada, considero “sexo seguro” um oxímoro e, mais ou menos alinhado à para mim profana (ou quase estatal… literalmente se considerarmos o Vaticano) Igreja Católica Apostólica Romana, sou contra o uso do látex como passaporte para uma promiscuidade paradoxalmente anódina.

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  • 5. Marcelo Cruz  |  09/09/2009 às 11:55 AM

    Teu texto é uma remissão dos pecados, um suspiro a um pobre carnívoro como eu.

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  • 6. Régis Antônio Coimbra  |  09/09/2009 às 11:57 AM

    Mão fumo? Bom… alguma coisa de valia tinha que surgir dessa verborragia toda, hehe…

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  • 7. Marininha  |  09/09/2009 às 12:04 PM

    Maaarrrr… tem um blog embutido no teu!!! hahahahaha

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  • 8. marjoriebier  |  09/09/2009 às 12:13 PM

    rsrsrsrs… não deixa de ser!

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  • 9. Renata  |  09/09/2009 às 12:21 PM

    a FOME
    – aquela que, decerto, não experimentamos –
    deve justificar muitos atos…

    beijo, querida!

    Responder
  • 10. marjoriebier  |  09/09/2009 às 12:38 PM

    “Não quero a faca, nem o queijo. Eu quero a fome.”

    – Adélia Prado –

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  • 11. Rafaela  |  09/09/2009 às 1:01 PM

    perfeito, marj!
    sobretudo qdo vc toca no ponto crítico q é a fome…
    o pensamento do seu pai é sapientíssimo!

    a crença é mais q isso! não tenho nada contra, mas tb não tenho a favor – exceto pelo fato de q serve de apanágio pra mtos sobreviventes desse MUNDO de vosso [!] ‘ Pai do Céu’.

    besos

    Responder
  • 12. Edith Janete Schaefer  |  09/09/2009 às 2:11 PM

    Assino embaixo também!!!
    beijinho

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  • 13. Rafael Dreweck  |  09/09/2009 às 4:30 PM

    Te puxou, Marjorie Bier… TE PUXOU!!!

    Responder
  • 14. Fábio Zen  |  09/09/2009 às 5:24 PM

    Porcos capitalistas e consumidores de carne suína embutida,encolhei-vos em arrependimento!

    Responder
  • 15. marjoriebier  |  09/09/2009 às 5:30 PM

    HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!

    Nada como um blog democrático!!!

    Responder
  • 16. Bier  |  09/09/2009 às 8:18 PM

    Tem gente juntando a fome com a vontade de foder…

    Responder
  • 17. marjoriebier  |  09/09/2009 às 8:19 PM

    IIIIIIIIIIIIiixxxxxxiiiiiii!!!

    Desde sempre!

    hahahahahahahaha

    Responder
  • 18. Ricardo Valente  |  10/09/2009 às 1:35 AM

    me amarro na tua escrita, tche!

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  • 19. marjoriebier  |  10/09/2009 às 6:30 AM

    Eu tb me amarro na tua, beibi!

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  • 20. Régis Antônio Coimbra  |  10/09/2009 às 12:03 PM

    Na linha paródica:

    Ah… o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que finge até o luto que deveras apanha, inclusive só e contra cinco, entre poemas e mais ou menos vãs filosofias.

    Responder
  • 21. marjoriebier  |  10/09/2009 às 12:23 PM

    “Eu ligo o rádio e blá-blá!!!”

    Responder

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