Quase fui Paquita um dia ®

24/08/2009 at 1:24 PM 8 comentários

Sim, quase fui. Não fosse aquela tarde lá dos estranhíssimos anos 80, minhas madeixas oxigenadas estariam, agora, debaixo de um ridículo quepe vermelho, embalando sonhos eróticos de algum ex-baixinho tarado.

Enviei centenas de cartas para o endereço repetido em 78 rotações: ruasaturninodebritosetentaequatrojardimbotânicoriodejaneiro. Assim mesmo, sem pausa e com profunda confusão numérica. Devo ter errado. E também devo ter tentando com sessenta e quatro e cinquenta e quatro e outro quatro qualquer. Fui sorteada, diversas vezes, num curso de mentalização positiva que eu e a terceira idade do Flamengo fazíamos. A tevê não mostrava, mas minhas cartas estavam todas lá, acredite, voando naquele imensa bolha azul celeste.

Enquanto aguardava ser chamada, ensaiava o triunfal desembarque da nave mãe. Fazia da lâmpada de cabeceira o show de leds psicodélicos direcionados todos a mim. Tinha o figurino perfeito (ser baliza da escola era mais que oportuno) e minha avó assistia às performances horrorizada: “Onde já se viu tanta vergonha numa casa cristã?”. Fui excomungada a mesma quantidade de vezes em que me pus a chorar. Sabia que era questão de honra conseguir controlar as emoções. And the Oscar goes to… Não entendia como eu, a reencarnação de Marylin Monroe, ainda não estava rebolando no Xou.

Numa tarde de março, a campainha tocou. Fiquei imaginando como seria, definitivamente, passar as manhãs correndo atrás de crianças histéricas e atirando beijinhos com um batom vermelho encarnado de dar inveja a qualquer dançarina de cúmbia. Em contrapartida, poderia faltar as aulas de matemática, química e física, e ter a ausência perdoada depois. A redenção!

No chão, um pacote vermelho estrategicamente esquecido aguardava para ser descoberto. Pensei em uma fita VHS cheia de adesivos e editada especialmente para mim. Nunca uma distância foi tão longa, assim como a frustração jamais havia chegado tão rápido. Os delírios juvenis haviam dado espaço a uma desconhecida enjambradura de papel; uma edição rara de Olhai os Lírios do Campo com a seguinte inscrição: “A beleza só é real com talento”. Um beijo e um coração.

Minha personal Marlene Matos nem sonha, mas foi Erico Veríssimo quem me empurrou pra redação.


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Entry filed under: Perplexidades.

Porque hoje é domingo… Deliciosa licença poética ®

8 Comentários Add your own

  • 1. Ricardo  |  24/08/2009 às 1:33 PM

    Belo texto, melhor que a encomenda…viajante !

    Responder
  • 2. Marininha  |  24/08/2009 às 3:43 PM

    hahahaha… Marjorie, tenho duas claras lembranças:

    1. A gente devia ter uns 8 anos e fugia da tua casa pra ir lá na Dani (lembra dela?) pra assistir o Chacrinha. Pra minha e pra tua família era tri indecente e só na casa dela a gente conseguia ver. Tu sabia as dancinhas! hahahaha

    2. Matamos muita aula pra ensaiar os passos das paquitas. Confesso, eu tb queria ser uma e morria de inveja da tua roupa (q só agora eu soube que era de baliza… grrrr).

    Adooooooro essas nostalgiazinhas…

    Responder
  • 3. Enrico  |  24/08/2009 às 4:43 PM

    TU QUERIA SER PAQUITA???? hahahahahahahahahahahahaha…. ainda bem que veio Erico te salvar. Eu teria morrido de desgosto, alemoa!

    Responder
  • 4. Rafaela  |  24/08/2009 às 5:18 PM

    hahahaha nuncaaa iria imaginar isso de ti!
    mas é assim mesmo: as pessoas mudam, né? good… rs

    *mas a parte das folgas pras aulas de mat, fís e quím seria o troféu mesmo! 😀

    beijo!

    Responder
  • 5. Renata  |  24/08/2009 às 7:06 PM

    E eu… que fui cover da Xuxa? (risos)
    Não era loira, nem comprida, nem de voz fina.
    Mas as crianças das escolas públicas,
    tão carentes de tudo
    – até de espetáculo -,
    assistiam-me deslumbradas
    e me pediam autógrafos ao final do “xou”.

    Até hoje, eu e minhas amigas “paquitas” rimos disso.
    E nos orgulhamos.
    Fizemos imensamente felizes,
    por alguns instantes,
    aquelas crianças que, talvez,
    nunca mais tenham presenciado
    uma expressão artística qualquer…

    Adoro os seus textos, Marjorie!
    Todos eles dizem um pouco de mim. : )

    Um beijo,
    doce de lira

    Responder
  • 6. Rafael  |  24/08/2009 às 8:12 PM

    Bi-zar-ro! hahahahaha… tu não tem talento nenhum pra essas coisas, alemoa! No máximo, Sidney Magal… e mesmo assim, depois de umas 5 cevas. Ainda bem que tu é essa baita redatora! Um desgosto a menos pro mundo!

    Responder
  • 7. Patrícia  |  01/09/2009 às 10:05 PM

    Muito legal. Cada dia me surpriendo com as pessoas. Marjore Paquita…mais uma descoberta, talvez foi melhor assim, tu tem muito talento, quem sabe escreve sobre os dias na Pólo…. eu ainda continuo lá.
    Bjos…

    Responder
  • 8. Leila  |  02/10/2009 às 11:32 PM

    Escreves maravilhosamente bem! Texto delicioso, parabéns

    Responder

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