Analfabeta Emocional ®

12/08/2009 at 1:23 PM 17 comentários

Ontem, encontrei minha avó debruçada sobre uma caixa de fotografias. Ela chorava. Poucas vezes a vi naquele estado. Tão desarmada, tão frágil, tão distante de si. Observei, de longe, para não macular aquele momento de desabafo e entrega.

Lembro-me, ainda criança, dessas caixas meticulosamente encapadas e repletas de imagens ancestrais. Cenários e pessoas que nunca estiveram presentes na minha vida e que me davam enredos fantásticos para a Disney em que transformei o porão de casa. Passávamos horas, só nós duas, limpando, falando, guardando, organizando. Um paraíso para uma virginiana típica como eu. Não fosse a rinite e os constantes espirros, ainda estaria no céu.

Brigávamos, vez ou outra, pela discordância da ordem. Nunca fui dada a metodismos. Espevitada, ouvia minha avó reclamar da organização, supostamente perfeita, com que havia empilhado as caixas de coisas sem utilidade. Etiquetadas. Todas elas cuidadosamente etiquetadas para serem esquecidas. Testemunhas silenciosas da imensa cortina de pó.

Costumava fugir depois das brigas. Não sabia ser contrariada, não ter meu esforço reconhecido. Não suportava ver minha dedicação desprezada depois de horas de concentração. Decidida, pegava um par de meias, escova de dentes e um casaco xadrez. “Pode esfriar”, minha avó repetia. E eu caminhava em direção à porta. E eu seguia pela rua. E retornava depois de uma volta no quarteirão, sem me dar conta que eu estava fugindo era de mim.

Desajeitada com diálogos, escrevia cartas recheadas de sofrimento e apelo. Esperava que, ao lê-las, aquela mulher de olhar claro e personalidade forte fosse se render ao meu afeto encaixotado.

A resposta vinha envelopada. Falávamos a mesma língua e o reflexo incomodava. Ignorava as palavras e, ferina, circulava os gritantes erros de grafia com uma mais ferina hidrocor verde limão. Repetia que, se ela não sabia escrever, era melhor nem tentar se comunicar. Touchê. Estava dado o golpe final.

E ontem a vi chorando, debruçada sobre uma caixa de fotografias. A mesma caixa que me deu tanto argumento para textos, prêmios e afins. Ontem, entre lágrimas, percebi que quem não sabia escrever era eu.

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Entry filed under: Perplexidades.

Hardcore Blues* ® Namorico de cemitério ®

17 Comentários Add your own

  • 1. Andressa  |  12/08/2009 às 1:57 PM

    Amada, que lindo!!!

    Responder
  • 2. Rafael  |  12/08/2009 às 2:35 PM

    Wow! Fuerte!!!

    Responder
  • 3. Marininha  |  12/08/2009 às 2:54 PM

    Mar… se tua vó lê isso, ela vai chorar mais uma semana! Já contou pra ela do lançamento do livro ou vai ser surpresa??? Bj

    Responder
  • 4. Cezar  |  12/08/2009 às 4:15 PM

    E se soubesse escrever, como seria? Mais um motivo pra eu não gostar do Sarney na Academia… he, he, he.

    Responder
  • 5. cleverson fetter  |  12/08/2009 às 5:18 PM

    So vc mesmo pra escrever coisa maravilhosas
    como vc é muito linda bjsss amei…

    Responder
  • 6. felipe damo  |  12/08/2009 às 6:01 PM

    depois falam dos aborígenes, que acreditam que as fotos roubam nossas almas…

    Responder
  • 7. Ricardo  |  12/08/2009 às 6:32 PM

    Lembrei de uma caixa de lata enegrecida pelo tempo de biscoitos ingleses em que minha avó guardava as fotos antigas…Havia esquecido isso a tantos tempos já…Hoje tu fez-me lembrar…Lindo texto !!!

    Responder
  • 8. Enrico  |  12/08/2009 às 7:52 PM

    CARALEEEEOOOOO!!!!

    Responder
  • 9. Marcelo Cruz  |  12/08/2009 às 8:27 PM

    Entendo, agora, de onde vem esse olhar, essa percepção, essa sensibilidade pra vida. Sua avó desse ser uma mulher incrível. Você também é.

    Responder
  • 10. Clara Morais  |  12/08/2009 às 11:56 PM

    Marjorie, virei frequentadora assídua do teu blog. Eu e mais um tanto de gente. Como é bom ver gente de cabeça boa soltando o verbo por aí.

    Responder
  • 11. edith janete  |  13/08/2009 às 1:31 AM

    Lindo!!
    Lembrei da rinite do teu pai vendo relíquias em Santo Ângelo…igualzinho…
    Doce Marjorie, parabéns!!

    Responder
  • 12. Guilherme Maron  |  13/08/2009 às 12:36 PM

    Que amigo desnaturado que sou … Tive o prazer de ler esse texto em primeira mão (morram de inveja) e nem deixei um comentário sobre ele …

    Bom, só posso reforçar que tua vó (querida, e faz o melhor pudim do mundo) vai tremer nas bases lendo isso … 😉

    Responder
  • 13. Eduardo Miguel Pardo  |  13/08/2009 às 9:30 PM

    Uma linda estoria em curta mas emocionante narrativa, lindo e muito tocante, parabéns.

    Responder
  • 14. Rafaela  |  14/08/2009 às 3:55 PM

    te vi no blog de marcia…

    e bacana! bem escrito – em regências e estilística!
    boas poesias tb!

    o/

    Responder
  • 15. Bier  |  14/08/2009 às 10:50 PM

    Onde eu, teu pai, fico nessas caixas?
    Eu sei que sofreste muito, mas eu também, policialmente observado desde que te tive.
    Com carinho e muita poesia,
    Bier

    Responder
  • 16. marjoriebier  |  15/08/2009 às 6:48 AM

    Meu pai… heroi nas caixas que minha vó guardou… e me ensinou a amar!

    Responder
  • 17. Farlei  |  19/08/2009 às 12:01 AM

    Caraca…essa nem vou tirar sarro ! se puxou guria !

    Responder

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