Hardcore Blues* ®

11/08/2009 at 11:09 AM 9 comentários

hardcore jpg

De todas as formas de felicidade, inexplicável era a da Janete quando queria impressionar. Vestia saiote vermelho, pintava a boca de pink ardente, salto baixo que não era boba nem nada e se jogava na Marechal. Antes de pisar na calçada, um ritual: abria a pochete comprada no camelô, tirava um frasquinho plástico com pouco mais de um dedo do seu perfume Flor dos Pampas, passava por entre os seios, tirava a calcinha do meio das pernas e respirava fundo pra começar. Varria as calçadas com seu chinelito rasteiro, saracoteava como se tivesse fogo nas ventas e jogava sua vasta cabeleira oxigenada pra lá e pra cá buscando alguma forma de contrição. A precisão com que planejava cada movimento, com que ria sua meia dúzia de dentes, com que abanava sua mão faceira a tornou Miss Universo daquela calçada. O povo gritava: “Um monumento à Janete!” e ela se refestelava como cusco pulguento prestes a devorar um pedaço perdido de xis carne no chão.

Janete tinha fã clube, associação de amigos, moradores, simpatizantes e cartão social. Exibia orgulhosa seu pedaço de cartolina amarela recortada com tesoura de picote e escrita com hidrocor azul pelo sobrinho Uélinton de 9 anos: “Janete Clér da Silva – uma flor de perdição”. Logo abaixo, um número (da vizinha Marinete que morava na casa dos fundos) e um coração.

Nos domingos acordava cedo. Ia na venda onde pedia fiado 12 cacetinhos, 12 fatias de “mortandela” e a margarina Mila que ela tinha visto no comercial. Voltava pra casa com o pacote pardo nas mãos, preparava os sanduíches (um pra cada membro da família), os embalava em pedaços igualmente recortados do papel rosa do açougue, enchia a térmica florida com limão esmagado entre os dedos e media: uma colher rasa de açúcar pro irmão que morreu, uma bem cheia pro santo que andava sem lhe escutar e mais um pouco no vidro de nescafé pro caso de precisar. Às 10 horas em ponto gritava chamando o povo, fechava a casa com cadeado e subia no ônibus da Viação Tiaraju rumo à Cascata do Comandaí. Lá se despia do mundo. Jogava longe suas havaianas surradas, seus brincos de conta verde que havia ganho no sarau e pulava na água. Mergulhando, purificava-se. Nadando, praticava: “um dia caio no mundo com um rabo bem grande de sereia”. E acabava o dia. E a procissão voltava encharcada pra casa. E Janete, inundada, se preparava pra voltar à vida.

Naufragada, enlouqueceu. Uns dizem que entrou água demais na cabeça. Outros, que ela foi contaminada por alguma substância tóxica trazida pelos sapatos de um freqüentador maldito do Itaquarinchim. Trocou a Marechal pela Marquês. Cortou os cabelos, tatuou uma flor vermelha nas coxas, aprendeu a fumar, abandonou o perfume e anda descalça na rua que é pra sentir os pés no chão. Deixou de sorrir e aprendeu a rimar. Semana passada foi vista correndo, pelada, na frente da Catedral. Estava aparentemente feliz e aos gritos cantava cara caramba cara cara ô. Entre um verso e outro, deixou escapar: “Meu Deus,  me ajuda a molhar…”.

*A pedidos, texto republicado.

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Sauveteur ® Analfabeta Emocional ®

9 Comentários Add your own

  • 1. Marcelo Cruz  |  11/08/2009 às 12:14 PM

    Merecido! Eu já havia lido esse texto, mas não sabia que era seu. Circulou muito no ano passado, não foi!? Parabéns pela linguagem leve e pelo ritmo embalado.

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  • 2. Guilherme Maron  |  11/08/2009 às 12:20 PM

    Só porque é mau elemento eu tenho que conhecer ???

    Responder
  • 3. agendapublicidade  |  11/08/2009 às 2:18 PM

    Aha! Uhu! A Marjorie é nossa!

    Responder
  • 4. Clara Moraes  |  11/08/2009 às 2:43 PM

    Muito bom, Marjorie. parabéns!

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  • 5. Marininha  |  11/08/2009 às 3:01 PM

    A Mar é meu Amigo Culto! hahahahahahaha… ai que eu me divirto com esses teus rabiscos debochadérrimos!!!!

    Responder
  • 6. Edith Janete Schaefer  |  11/08/2009 às 3:31 PM

    hehe…
    Gostei da tua Janete…
    Pior que é um nome que lembra prostituta, as francesas…ainda bem que tenho o Edith pra me salvar…
    beijinho

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  • 7. Rafael  |  11/08/2009 às 5:09 PM

    Neguinha… fazia tempo que eu não aparecia aqui. Que coisa bem bonita e boa esse teu blog. BBB pra ti, Calíope! A beleza só existe pra quem tem talento.

    Responder
  • 8. Ricardo  |  11/08/2009 às 8:51 PM

    Foram cinco parágrafos lindamente construidos…Bela Janete tu fizeste…Valeu Mar.

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  • 9. Rafaela  |  20/08/2009 às 8:18 PM

    uau!
    vi, tristemente, em Janete, a metonímia de tantas outras moças q há por aí…

    Responder

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